Morfológicas é um projeto que reimagina os mapas geomorfológicos tradicionais por meio da gravura contemporânea, criando cartografias fantásticas que desafiam os sistemas de conhecimento extrativistas e racionais. A partir de pesquisas em arquivos, narrativas locais em perspectivas decoloniais, a obra critica as representações científicas da natureza e propõe uma geografia pós-antropocêntrica enraizada na interdependência, no afeto e na multiplicidade. Ao transformar a paisagem em um arquivo vivo, impregnado de hIstórias, e ao dissolver fronteiras rígidas em redes fluidas e moleculares, o projeto convida a uma relação poética e emocional com o território. O desenho torna-se uma ferramenta para repensar limites e se reconectar com a natureza de formas mais íntimas e imaginativas.
Série de dez gravuras em metal (água-forte).
"Sobra a proporção das Formas", Galeria Coletivo Amarelo 2025 _ Lisboa / Portugal
"Embodied histories, intertwining paths”, Miart 2025 _ Milão / Itália
João Pedro Soares
Giulia Lamoni e Margarida Brito Alves
João Pedro Soares
Talvez tudo se inicie numa montanha, no despertar da terra erguida em altos cumes, em ancestrais sedimentações de espanto e mistério.
Por aí diante, na descida das escarpas ingremes, a vida acontece, alberga-se nas fendas, reproduz-se nas encostas, alimenta-se nas grutas. Talvez seja por isso, também, que quando uma montanha desaparece, uma parte de nós deixa de existir, e interrompe-se algo no diálogo multiespécies onde nos inserimos. O vazio acomete-se repentino numa paisagem onde, apesar dos esforços de novos mantos vegetais, fica sempre aquele espaço por preencher. Uma cicatriz.
O trabalho de gravura de Flavia Regaldo parte precisamente destes pressupostos, de um lugar de fala alicerçado no ecossistema de campo rupestre de Minas Gerais e dos incessantes processos extrativos nesse território: se em tempos distantes e coloniais se ocupava este lugar numa desenfreada extração de ouro e diamantes, agora perpetuam-se os mesmos gestos de violência ecológica, no que é atualmente a extração do minério de ferro. Montanhas desaparecem do dia para a noite.
Mediante este estado de coisas, Regaldo apresenta na galeria Coletivo Amarelo a exposição Sobre a proporção das formas, com curadoria de Giulia Lamoni e Margarida Brito Alves. Trata-se de um mergulho nas últimas investigações da artista, que, apesar do percurso multidisciplinar (contando com obras de arte visual, desenho e instalação), tem vindo a especializar-se em gravura. Deste movimento criativo resultam as séries Deslize e Morfológicas, ambas iniciadas em 2024, e que contemplam semelhantes preocupações face à relação humana com a matéria mineral, compondo a maior parte da exposição. Mas também duas instalações Oscilação (2025) e Íngreme (2025). A primeira é composta por serigrafia em tecido assente numa estrutura de ferro, e a segunda é formada por placas de cobre gravadas e suspensas numa armação metálica.
Por sua vez, a série Deslize ocupa-se com a questão do degelo glaciar e surge de uma residência em Espanha para pensar este fenómeno nos Pirenéus espanhóis, em particular, nos Picos Aneto e Maladeta. Num conjunto de seis gravuras em metal e água-tinta, em tons avermelhados de espantosa nitidez, observam-se os relevos acidentados destes cumes, e convoca-se uma procura por captar os movimentos da cordilheira, estabelecendo-se uma relação contemplativa com o tempo geológico, num jogo de escalas entre humanidade e mineralidade que incita a consciência acerca das diferentes – mas também coincidentes – formas de encarar o espaço e o tempo que habitamos em conjunto com as montanhas.
A série Morfológicas, por sua vez, compõe-se de uma série de dez gravuras – também elas em metal e água-tinta – e parte de um material mais amplo de Regaldo, na recolha de arquivos e mapas, para refletir acerca de questões que parecem incidir sobre aquilo que poderia ser uma “afetividade geológica”. Isto é, se numa primeira instância observamos um pendor cartográfico, uma observação aérea sobre o território, onde o uso de mapas geomorfológicos encaminha uma detalhada atenção aos contornos, desníveis e elevações, fazendo-nos perscrutar intimamente as formas e proporções montanhosas; num segundo momento Morfológicas começa a mergulhar no solo, num estonteante aterramento, onde a gravura se torna microscopia, onde o que antes parecia ser mapa, acaba por se tornar micro-organismo.
Surgem também palavras convocadas no que a artista assume enquanto escrita inconsciente: “Caminho por voltas, caminho por séculos, caminho por orlas, caminho…” onde se torna impossível não pensar na famosa asserção do conservacionista e filósofo ambiental Aldo Leopold: “Pensar como uma montanha.” E nisto, não só pensamos como ela, como também nos tornamos nela, naquilo que o depurado trabalho artístico e investigativo de Flavia Regaldo consegue, em suma, convocar: uma reflexão de proximidade sobre montanhas, tempo e afetos.
Patente na galeria Coletivo Amarelo, em Marvila, até 24 de janeiro de 2026, a exposição é uma oportunidade de conhecer um trabalho estimulante acerca das relações que estabelecemos com o mundo natural. A entrada é livre.
BIOGRAFIA
João Pedro Soares (Almada, 1995) é cineasta, investigador e escritor. Licenciado em Artes e Humanidades pela Universidade de Lisboa, fez mestrado em Argumento e Realização na ESTC. O seu trabalho abrange cinema, fotografia e escrita, com foco nas relações entre humano-natureza, ecologia, futuros regenerativos e na interseção entre arte e agricultura. É doutorando em Estudos Artísticos na NOVA FCSH, com investigação sobre ecologia no cinema documental português contemporâneo. Realizou as curtas-metragens premiadas “Retrato de um homem enquanto ilha” (Prémio Novos Talentos Fnac 2021) e “A Incessante Conquista da Escuridão”, ambas exibidas em grandes festivais. Publicou ensaios, contos e poesia.
Giulia Lamoni e Margarida Brito Alves
“Stones, like us, stand at the intersection of countless lines crossing one another and receding to infinity, at the center of a field of forces too unpredictable to be measured; and we awkwardly call the result chance, hazard, or fate.”
Marguerite Yourcenar, “Introduction” em Roger Caillois, The Writing of Stones, Charlottesville, University Press of Virginia, 1985, p. xix.
Particularmente atenta à vida mineral e aos seus ciclos, movimentos e transformações, Flávia Regaldo (Belo Horizonte, 1984) tem vindo a desenvolver um trabalho em gravura que explora diferentes técnicas e sensibilidades. Nessa prática, as relações que estabelece com o mundo natural articulam-se com experiências e narrativas pessoais através de um singular processo de inscrição.
As formas, mas também as falhas, os acidentes, as fissuras e fracturas, ou as reconfigurações que esse mundo lhe oferece constituem-se como pontos de partida de um exercício que tanto se joga na história e nos seus vestígios, como na projecção e na imaginação.
É a essa pesquisa, elaborada em torno da interligação entre uma observação crítica, uma dimensão poética e o ofício da gravura, que a exposição Sobre a Proporção das Formas dá continuidade, reunindo trabalhos recentes das séries Deslize e Morfológicas, e colocando-os em diálogo com peças tridimensionais.
O conjunto de obras apresentadas explora diferentes formatos e materialidades, e propõe um desdobramento, ou uma ampliação, da própria gravura e dos seus processos. Assumindo uma componente experimental, em alguns trabalhos a gravura incorpora a palavra escrita, enquanto noutros, e em paralelo, procura um lugar para além dos limites da superfície bidimensional, ao prolongar-se, ou compor-se, no espaço.
Se as obras desta exposição se encontram, desse modo, numa situação instável perante os espaços que recriam e ocupam, simultaneamente questionam as noções que temos de tempo, de memória, de afecto e de paisagem, tal como a relação que com elas criamos.
Ao agir em diferentes escalas – que variam entre a presença imponente das montanhas em Deslize e a geografia celular dos mapas em Morfológicas – e ao convocar temporalidades distintas – a instantaneidade da captação de uma imagem fotográfica e a prática lenta e laboriosa da incisão –, os trabalhos de Flávia revelam um olhar cuidado, que oscila entre o (aparentemente) mais próximo e o mais distante, entre as alterações que moldam o corpo da montanha e a ficção do desenho.
Nesse sentido, as linhas de separação entre o traço – as palavras e as linhas gravadas sobre o metal, impressas em papel ou em tecido – e os signos delineados pelas rochas, pedras e montanhas, nos seus movimentos flagrantes ou impercetíveis, parecem aqui encontrar a possibilidade se conectar e suturar.
Reconfigurada através do gesto que fixa a sua representação, e dando corpo à textura do mundo lítico, a paisagem contemplada, mas também examinada e vivida, não é aqui perspetivada como inerte ou passiva, mas como viva e actuante – convidando-nos a participar num encontro cujos contornos permanecem por definir.