Vertigem contrasta as alturas de paisagens geológicas com as profundezas interiores dos medos e dos afetos, considerando o derretimento dos glaciares como colapso social figurativo. Vertigem do tempo. Vertigem dos nossos tempos.
A quantos metros de altura se pode contar uma conquista? Cume e precipício. A imensidão da paisagem em fusão com a queda. O chão. O sonho. O mito como forma possível de organização e sentido. Uma linha na geografia de tensão milenar do solo. O glaciar apresenta-se como uma quimera, um sonho de altura e de posse. Uma disputa geopolítica ultrapassada, pois estamos agora em contagem regressiva, 2 centímetros, 2 metros, quem dá menos? Uma era por dia, voltamos a desconhecer as proporções. O derretimento como colapso. A verticalidade em fusão com o abismo. Vertigem primordial. Medo.
Pesquisa realizada durante a residência artística na Cité Internationale de Arts – Paris, França /Projeto realizado com o financiamento da bolsa Culture Moves Creative Europe _União Europeia
Série de nove gravuras em metal (fotogravuras em água-tinta) e instalação sonora. Fotografias dos glaciares da cadeia montanhosa do Monte Branco, Fronteira França/Itália.
Texto: David Revés, Flavia Regaldo, Teresa Siewerdt
Voz: Pedro Domingos
Colaboração: Tiago Matos
Depois da Partida é um trabalho que aborda a matéria mineral e suas dimensões humano-cósmicas. Um trabalho sobre o tempo, as montanhas, e os afetos. Um percurso expositivo em capítulos, guiado pela gravura e alimentado por fotografias, vídeo, som e texto.
Venho de Minas Gerais, no Brasil, estado onde o desaparecimento de montanhas devido ao extrativismo é uma constante histórica. O projeto Depois da Partida tem origem em trabalhos anteriores relacionados com montanhas, pedras e o solo colonial. As obras exploram formas de simbolizar contrastes entre dimensões e rasuras. Entre o tempo natural e o tempo humano, entre a construção e o descarte. Aqui, opõem-se e fundem-se magnitudes. O tempo humano junta-se ao tempo cósmico pela extensão de sua mitologia, de seus contos e devaneios. A contagem do tempo geológico acelera-se com os desmoronamentos do Antropoceno. Em vários dos meus trabalhos, essa dupla perspectiva coloca-se como central para a compreensão de relações históricas e a constituição de memórias e ficções coletivas.
O percurso de Depois da Partida se inicia pela minha narrativa pessoal, marcada pelo desmoronamento sensível de uma parceria amorosa e artística de longos anos, que coincide com o desabamento de uma grande pedra na casa dividida com meu parceiro nas montanhas de Minas, nosso espaço de pesquisa comum. A queda se consolida pelo colapso político do meu país naquele mesmo ano, marco de mais uma erosão. Em fuga por outras cordilheiras, os caminhos se abrem para explorar novas ficções de corpos-geologia.
Buraco: em Minas Gerais, as pedras são devoradas. Extrai- se o minério cor de sangue vermelho, que percorre novas rotas, distintas daquelas outrora percorridas pelo ouro.
Cabeça de Anta era Boi: em minha nova morada, as pedras imitam o movimento do mar.
Erupção, Sobre os Afetos, Estrépito e Arrebentação: para sempre, os vulcões explodem, liquidam e fertilizam a terra. Ciclo perpétuo de uma história não linear.
Vertigem e Deslize: o degelo, o medo do fim se manifesta como vertigem social.
Um projeto que busca capturar o movimento das montanhas.
Em ambas as terras, novas perspectivas sobre o amor. As reconstruções só poderão ser mediadas pelos afetos.
"Ateliês Abertos", Cité Internationale de Arts 2023 _ Paris / França.
"Depois da Partida", NowHere 2024 _ Lisboa / Portugal
"Worlds that Hold On, Worlds that Creep Up", Seidlvilla 2025 _ Munique / Alemanha
David Revés, Flavia Regaldo, Teresa Siewerdt
David Revés, Flavia Regaldo, Teresa Siewerdt
Texto da instalação sonora.
Elaborado por meio de escrita inconsciente, a partir de um exercício proposto pela artista durante a residência artística na Cité Internationale des Arts_2023
DAVID REVÉS
Estou à janela. A fumar um cigarro. Vejo o fumo a sair, as suas volutas misturam-se com o ar invisível. Frio lá fora e as pessoas lá em baixo. Despercebidas de que as olho — na sua vida mundana e talvez monótona. Há algo que me empurra. Um sentimento que é ao mesmo tempo agradável e doentio. Imagino-me a saltar, e imagino o tempo entre o salto e a chegada ao chão. Esborrachado, pernas e braços partidos. Olhos fora das órbitas. O cigarro lentamente a consumir-se ao meu lado. Não cedo. Não há forma de o fazer. Esse desejo é apenas curiosidade mórbida, mas é bem regado a medo. Muito medo. Do nada que se segue. Ou da possibilidade de que esse nada seja efectivamente vazio. Um nada redondo, oco. Mundano e monótono. Sem glória, nem graça, nem luz. Frio gelado. Daquele que já não sentimos, mas está lá. A fazer apodrecer as pontas dos dedos. 50 graus negativos. A escuridão eterna de um caixão fechado debaixo de terra. Debaixo de uma pedra que se move apenas para receber uma nova companhia, igualmente imóvel e monótona.
Mas a janela onde estou é apenas isso. Uma janela. Aberta sobre um vazio que, sendo aqui físico, espacial, não o deixa de ser igualmente psicológico. Um vazio do pensamento? Impossível equação. Cair não é mais do que perder verticalidade. A todes haverá de acontecer. Deitados ou feitos em pó. Da estrelas vieste, às estrelas retomarás, alguém dizia. E dizia bem. A queda é, afinal, um processo de levantamento, de desprendimento de tudo o que sempre se sobrepôs a nós e pressionou as nossas cabeças. A pressão da mão que se levanta para nos ajudar a andar, a falar, a gesticular, a sorrir quando devemos sorrir, a responder na hora certa ou a calar nas horas erradas. Cair é um acto de libertação? Talvez, mas doloroso. Mas só o é para quem imagina essa queda. Espero. Espero que não o seja para quem já caiu e se encontra jogado no chão, sem dor porque já sem corpo.
Disse sem graça. E penso estar certo. Não há ascensão na queda. Nem depois dela. Só há a queda. Depois disso só um estado de confusão. Ou seja, de continuidade indistinta entre o corpo — aquele corpo que já não será nosso porque já não haverá um nós, um Eu — e o chão. A queda está já na maçã reluzente ainda presa na árvore, como está naquela maçã que apodrece na terra. Está na minhoca que a come por dentro, como está no verniz que a mascara nas prateleiras de uma qualquer grande superfície comercial. A queda é o acto de existir. Em qualquer lugar e dimensão: consciente ou inconsciente. E existir é sempre existir em queda. Sempre um jogo — uma dança — entre perdas e ganhos. Embora sem necessidade de acertos finais. Pelo menos para nós, merceeiros trapalhões e maus de contas. Nem o Sol é eterno.
Olhando-o desde esta janela, sei disso. E sei que esse sol cheio de si também o sabe.
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FLAVIA REGALDO
abismo
no alto na ponta, no ultimo fio frio e molhado, no vestígio da pedra
para baixo o abismo
impossível de olhar
mergulho é escuro na noite?
dedos gelados sentem o chão
vontade se se lançar é medo
pavor é vontade de voar - de se ver dissolvendo no ar
a vertigem come dentro como um verme até o ceu da boca
nó entranhado na carne dura, na superfície sólida da pedra milenar
que se agarra até a última linha da palavra lógica
lá em baixo, oceano de água espuma, lava que escorrega e com seus tentáculos tenta me puxar, são fantasmas ou são partículas reunidas em projeção como a poeira que fica visível naquela fresta de sol que entra pela janela
a luz não chega ao fundo, ela paira na superfície, na camada fina e leve.
o abismo é vertical
é um corpo inteiro em pé, olhando para si, para o dedo do pé
é o sentir desenrolar algo da pele, do suor que escorre do cheiro do que se escuta.
e talvez sem perceber o se lançar se torna cambalhota na esfera do medo e do vazio, no pleno contato com um outro lado viscoso, para cair o corpo e erguer algo dentro do vento na beira
no limiar
na linha
no limite
no contato de cada célula do corpo com o ar
na fresta entre o lodo e a pedra, derrapa-se
o cair é rápido
sem saber o limite entre a vida e a morte
o universo e o pulso por dentro de cada ser
se não ha barreira, é como entrar dentro da água e não reconhecer qual parte do corpo está molhada
a queda é pressão
é rapidez
é velocidade
é brutalidade
rasgo
é silêncio
é a vertigem de não saber o limite da insanidade, víscera da pedra.
a queda é gás
é vento
leve
lava
leve-se
flutua-se então
ao deixar-se de cair
o flutuar se torna a orientação dos lados
sem frente, traz, costas o pairar em todas as direções
a rapidez, se re-configura em transformação
a gravidade, em redemoinhos e espirais.
quando era pequena, brincava de pular do alto do muro com um manto
o manto da civilização
nas tramas do tecido e do algodão,
nas tramas do sentimento de humanidade
o que resta no pulo é esse pano, lembrança da terra
lembrança do presente
memória do futuro
lugar do resguardo
mas ao contrário da queda brusca da infância
o fim não chega
continuo a cair
em conjunto com toda a paisagem
as pedras caem junto em maior ou menor velocidade
é como se as pequenas pedrinhas quisessem acelerar mais do que a rocha o peso de uma ou outra não conta
é a propulsão interna de um diverti-se em contar o alargamento do espaço é a possibilidade de esticar as distâncias como um chiclete daqueles rosas que se puxa até o fim com as mãos.
as pequenas letras de ferro, desse ferro da mesma entranha da rocha, pensam em ultrapassar e ganhar espaço
na distância crescimento e expansão
as palavras ganham caminho e uma conversa ou outra começa a surgir
são vozes
são os primeiros carinhos que as pedras conseguem fazer
-ei você, vem aqui
as palavras são fumaça e na queda sobem
pois percebem que a queda não é unilateral a queda é explodir pra todos os lados
a queda é subida é energia em expansão
a queda é vertigem do círculo, do circuito
as palavras entendem na sua constituição a impossibilidade de traçar uma linha reta.
sem paralelos é toda a floresta, crescendo em galhos e raizes para todos os lados
na suspensão a montanha continua se mexendo invisivelmente, sem nunca estar parada
o gelo que derrete é a água que escorre dentro pra brotar
o crescer o evaporar não ocorrem em somente uma direção temporal mas se conectam com todas as possíveis direções do tempo
o força que vem detrás do floresta que insiste em aparecer, brotar entre o braço da montanha que cresce e se solidifica no sonho
as pontas nevadas escorregam
um escorregão e pronto, um pequeno impacto já nos leva a acreditar no abismo novamente
parados todos, temos medo de continuar um fluxo do qual não sabemos fazer parte
como as palavras que brotam.
o pensamento bloqueia em suposto peso do corpo que para e olha pra baixo novamente
e vê lá embaixo o que acredita ser a linha do tempo
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TERESA SIEWERDT
Observo de cima dos ombros os meus sapatos pisando em uma imensa plataforma de vidro construída no topo de um penhasco. Sob a plataforma, avistam-se rochas nuas e manchas de vegetação. Elas parecem minúsculas e, ao mesmo tempo, gigantescas, distantes e extremamente próximas. São simples e bonitas. Considerando o peso do corpo, a densidade do ar e a velocidade do vento, especulo que meu corpo levaria aproximadamente 14 segundos de queda para alcançar as rochas e a vegetação. De forma involuntária, esta paisagem se funde ao meu olhar como uma porção de galáxia ao redor de um buraco negro. A razão não é suficiente, e a sensação de vertigem se equipara à força de uma correnteza de rio que puxa para algum lugar fora de mim mesma. É como um convite para sair do centro e conhecer as margens. Dizem que este vidro sobre o qual estou apoiada é inquebrável. Para acreditar neste vidro, é preciso ter fé na humanidade, em suas próteses tecnológicas, nas promessas de progresso infinito, nos foguetes e nos submarinos, no sentido da guerra, no comércio global, no mercado de arte e de ações, nas criptomoedas. Mas meu corpo não confia em nada disso.
E se este vidro se quebrasse? Na verdade, muito provavelmente ele já tenha quebrado. Faz quanto tempo? 50 anos, 150 anos, 500 anos? Corpos caem, mundos caem. Quanto tempo nos resta ainda de queda? A pior parte é não saber quanto tempo vai durar a espera. O que pensar, o que fazer durante esse tempo. O mundo irá se acabar? O mundo está se acabando? Estamos próximos da colisão. Milhares despencam agora do alto da estrutura de vidro. Alguns aguardam indiferentes a chegada do fim, um "game over", enquanto outros imaginam formas de aterrissar e "adiar o fim do mundo" e inventam uma ciência para sobreviver.
Me contaram que não há embaixo nem em cima quando se trata de objetos cósmicos. Saber é ao mesmo tempo queda e ascensão. Morrer e renascer como parte de outra coisa. A topografia de uma faixa de Möbius. A possibilidade de inversão de um sinal do negativo para o positivo em questão de segundos. Enquanto se vive, se espera ou se imagina, o tempo dança, volta, cai, roda, se sobrepõe e tropeça sobre si mesmo. A forma é espiralar. Desenha formas dinâmicas que flamejam e serpenteiam no céu, como uma fita multicolorida amarrada na ponta de uma vareta de madeira nas mãos de uma criança. Novamente, encaro os sapatos. Desta vez, eles não estão mais calçados nos pés e nem sobre uma plataforma de vidro. Depois da vertigem, aprendo sobre novos começos possíveis.