Flavia Regaldo

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Cabeça de anta era boi

parte da série Depois da Partida


Cabeça de Anta partiu de um sonho. Uma cabeça de anta entre pedras caídas; fotografias em preto e branco nas quais essa cabeça se impunha, mas era difícil de se distinguir. O sonho não era de uma pessoa só, mas de duas. Nenhuma delas sabia quem o havia sonhado. Da magia da anta o que resta é a cabeça de boi, às seis da manhã, numa quase encruzilhada. Os grãos das gravuras em água-tinta carregam o contraste das dimensões, a parte pelo todo no ponto do pó-montanha.

Série de gravuras em metal (fotogravuras em água-tinta).
Fotografias do litoral atlântico de Portugal - Praia da Ursa e Praia da Ponta Ruiva.

Depois da partida


Depois da Partida é um trabalho que aborda a matéria mineral e suas dimensões humano-cósmicas. Um trabalho sobre o tempo, as montanhas, e os afetos. Um percurso expositivo em capítulos, guiado pela gravura e alimentado por fotografias, vídeo, som e texto.

Venho de Minas Gerais, no Brasil, estado onde o desaparecimento de montanhas devido ao extrativismo é uma constante histórica. O projeto Depois da Partida tem origem em trabalhos anteriores relacionados com montanhas, pedras e o solo colonial. As obras exploram formas de simbolizar contrastes entre dimensões e rasuras. Entre o tempo natural e o tempo humano, entre a construção e o descarte. Aqui, opõem-se e fundem-se magnitudes. O tempo humano junta-se ao tempo cósmico pela extensão de sua mitologia, de seus contos e devaneios. A contagem do tempo geológico acelera-se com os desmoronamentos do Antropoceno. Em vários dos meus trabalhos, essa dupla perspectiva coloca-se como central para a compreensão de relações históricas e a constituição de memórias e ficções coletivas.

 

O percurso de Depois da Partida se inicia pela minha narrativa pessoal, marcada pelo desmoronamento sensível de uma parceria amorosa e artística de longos anos, que coincide com o desabamento de uma grande pedra na casa dividida com meu companheiro nas montanhas de Minas, nosso espaço de pesquisa comum. A queda se consolida pelo colapso político do meu país naquele mesmo ano, marco de mais uma erosão. Em fuga por outras cordilheiras, os caminhos se abrem para explorar novas ficções de corpos-geologia.

 

Em casa, as pedras são devoradas. Extrai- se o minério cor de sangue vermelho, que percorre novas rotas, distintas daquelas outrora percorridas pelo ouro. O lítio é arrancado do corpo da Terra em novas proporções coloniais. Em minha nova morada, longe da colônia, as pedras imitam o movimento do mar. Para sempre, os vulcões explodem, liquidam e fertilizam a terra. Ciclo perpétuo de uma história não linear. Em ambas as terras, na Terra, o medo do fim se manifesta como vertigem social. Em ambas as terras, novas perspectivas sobre o amor. As reconstruções só poderão ser mediadas pelos afetos.

Exposições

CAC Meymac 2022 _ Meymac / França
Centro de Arte Oliva 2023_São João da Madeira / Portugal
Coletivo Amarelo 2024_Lisboa/ Portugal
NowHere 2024 _Lisboa/Portugal


Sobre mover Montanhas

Camila de Caux


Um ensaio de Camila de Caux
em diálogo com o trabalho
Depois da Partida _
Cabeça de Anta era Boi


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As montanhas podem ser entidades vivas e misteriosas.
Também podem ser conquistadas, pulverizadas e
transformadas em rejeitos de mineração.


A montanha era maior.
Tantos mortos amontoados,
o tempo roendo os mortos.
“Viagem na Família”, Carlos Drummond de Andrade


Durante os dois primeiros séculos da invasão portuguesa à terra que ficou conhecida como Brasil, os colonos se concentraram principalmente ao longo da costa. A barreira natural erguida pela Serra do Mar, uma cadeia de montanhas que corre paralela ao Atlântico, no sudeste do país, impediu a expansão colonial para o interior do território. Escondendo a vastidão dessa colônia difícil de domar, a muralha subia entre 800 e 1.000 metros de altura. Sertão ou certão, um termo já usado em Portugal antes da colonização, passou a designar essa área interna do Brasil, desenhada com contornos imprecisos, imaginada em grande parte como vazia. Dois séculos após o início do projeto de colonização, as investigações cartográficas do Brasil só podiam traçar o imapeável.

Em um mapa de 1640, John Blaeu retrata um litoral repleto de apreensões topográficas, nomes de lugares já supostamente domesticados pela coroa. O interior, por outro lado, não contém mais do que algumas cadeias de montanhas, alguns rios e etnônimos vagos – e bastante improváveis – de povos indígenas. Essas eram as promessas do sertão: as pedras preciosas, as vias fluviais e os “gentios bravos”, as três maiores incógnitas da nova terra. Não é de se admirar que outros mapas, como a Carta do Atlântico de 1681, do cartógrafo português João Teixeira de Albernaz II, apresentem apenas um vazio cartográfico – as terras do interior tornam-se um espaço em branco entre dois grandes rios. Na lacuna, o que está desenhado é o esforço de desmistificar o desconhecido apagando-o.

“Nunca se conhece de fato a montanha”, escreveu Nan Shepherd, uma autora que passou a vida caminhando pelas encostas dos Cairngorms, no leste das Terras Altas escocesas. Shepherd era uma localista. Em The Living Mountain, suas descrições da paisagem são meticulosas, traduzindo perfeitamente a corporeidade mutável das montanhas. Por mais cativantes que suas palavras sejam, porém, é a montanha mesma que nos seduz. Ela nos SOBRE MOVER MONTANHAS Um ensaio de Camila de Caux em diálogo com o trabalho Depois da Partida _ Cabeça de Anta era Boi As montanhas podem ser entidades vivas e misteriosas. Também podem ser conquistadas, pulverizadas e transformadas em rejeitos de mineração. A montanha era maior. Tantos mortos amontoados, o tempo roendo os mortos. “Viagem na Família”, Carlos Drummond de Andrade encanta. Ao caminharmos por ela, estamos de repente suscetíveis a seus pontos de virada. Há um tipo de dispositivo oracular nas rochas, algo que abre nossa imaginação, que nos atrai para as reentrâncias de seus caminhos. Mesmo que as apreendamos minuciosamente, ainda nos resta a sensação de que algo escapa.”Se eu tivesse outros sentidos”, diz Shepherd, “haveria outras coisas que eu deveria saber”. Ao caminhar pelas trilhas da montanha, ficamos aumentados – “feéricos”, Shepherd sugere. “Como a bebida e a paixão, ela intensifica a vida até o ponto da glória”.

Quando começaram a plantar bandeiras no cume das montanhas? Em Mountains of the Mind, o escritor britânico Robert MacFarlane nos conta que o interesse pelo alpinismo data de pouco mais de 300 anos. Um espaço de acessos complicados e presenças sobrenaturais, a montanha era uma paisagem de obstáculos. Até as últimas décadas do século 18, diz o autor, o lema era contornar as montanhas – “por seus flancos ou entre elas, se absolutamente necessário – como muitos comerciantes, soldados, peregrinos e missionários tiveram que fazer – mas certamente não subi-las”.

A partir do século XVIII – em consonância com a ideia romântica incorporada nas caminhadas pela natureza, na Europa – as montanhas passaram a figurar como espaços de contemplação, visitação e exploração. Os alpinistas escalavam montanhas para se divertir, buscando gratificação sensual na subida. No topo, eles recebiam a recompensa: a paisagem e a imensidão, mas também a promessa de riscos maiores.

No Brasil colonial, foi no sertão que se refugiaram os povos indígenas e negros que escapavam do regime escravocrata. Se eles não se escondiam dos capatazes que viajavam intencionalmente para capturá-los ou matá-los, eles fugiam da pressão demográfica causada pela chegada de outros povos, que não habitavam a região anteriormente, mas agora se deslocavam em busca de territórios mais seguros.

A fuga era em si um ato de resistência, e a rota era nas montanhas. Em seus esconderijos, em seus lados esquecidos, os quilombos puderam brotar e os povos indígenas puderam adequar-se ao espaço cada vez mais restrito para suas práticas de autogoverno.

“Todas essas vastas e numerosas montanhas são montões de ouro e metais preciosos”, disse José Rodrigues de Abreu, em 1739, sobre as serras do interior do Brasil. Relatos como esse chegavam continuamente das incursões dos colonos nos sertões do sudeste, com o objetivo único de fornecer à coroa as “boas razões” para a expansão interna.

Os bandeirantes que viajavam aos sertões se sentiam ao mesmo tempo ameaçados e fascinados pelos nativos da terra. Somente com o apoio deles – seu conhecimento do território, sua tecnologia de trilhas, seus manuais de caça aclimatados – os chamados pioneiros puderam penetrar no interior. Foram os nativos que forneceram à coroa informações sobre as montanhas ricas em metais, cujos nomes acabaram integrando a linguagem dos invasores no próprio vocabulário tupi-guarani. Sabarabuçu, Itaverava, Ibituruna provavelmente nunca funcionaram como topônimos nas línguas indígenas; eram descrições contextuais e transitórias, próprias de cada subgrupo indígena, de uma “grande rocha brilhante”, uma “montanha resplandescente”, um “morro negro”. Muitas eram as montanhas brilhantes. Foi só a busca insana por minério que acabou colando a miríade de itaveravas em morros específicos, que acabou destacando no mar de morros os pontos que depois foram convertidos em recursos. Foi ao longo desse processo que nasceu a cidade chamada Itabira.

“Algo se move entre mim e ela”, escreveu Nan Shepherd. Com o passar dos anos, suas longas caminhadas pelos Cairngorms começaram a satisfazer não seu desejo de conhecer as montanhas, mas de desconhecê-las. Os efeitos sensoriais resultantes de seu relacionamento com elas – “cada sentido elevado à sua consciência mais requintada” – permitiram que ela ampliasse as montanhas, não para dar um zoom e torná-las decifráveis, mas para alterar a si mesma e as montanhas em um único ato. Ela movia os olhos sobre a face desses gigantes imóveis, mudava o foco da grande escala para a dimensão mínima, e então confundia-se no contraste entre as paredes brilhantes e seus cortes escuros. Assim, acontecia uma mudança perceptiva. “Coisas estáticas”, afirmou ela, “são capturadas no próprio ato de devir”.

A atenção a uma montanha revela um fluxo animado. Olhe para ela. Observe os nós variáveis da montanha e você poderá vê-la em toda parte – a cabeça de anta. Deixe seus olhos descansarem, contemple o vasto espaço que preenche o canto de seus olhos. Você verá suas mandíbulas, os músculos de seu nariz, o impulso de seus olhos como um vulto de dupla face que espia enquanto você passa.

Você não pode controlá-lo, porém. Olhe para ela com olhos gananciosos e ela desaparecerá. É isso que a anta faz, ela seduz você, mas quando você tenta agarrá-la, ela desaparece. Em seu lugar, tudo o que você pode ver é o chão sujo, a terra sem forma e, sobre ela, a carcaça de um boi sem cabeça.

A ideia de recompensa associada às subidas ao topo reflete uma maneira de pensar. O que o alpinista almeja é a ascensão. Quando a montanha se tornou uma trilha romântica para caminhadas, ela também se tornou uma torre de vigia simbólica. É um espaço de conhecimento supremo. Escale-a e sua recompensa será a paisagem – a possibilidade de tudo ver, de compreender tudo, de dominar o todo.

Plante uma bandeira. Depois, quando a montanha for sua, você poderá finalmente dar início ao projeto de mineração.

Foi um marco para a colonização portuguesa, mas não foi mais que a continuação do desastre para as populações indígenas e negras que se refugiaram no interior da região sudeste do país. A notícia de minérios escondidos nas montanhas, que surgiu efetivamente no início do século XVIII, levou ao estabelecimento das primeiras vilas afastadas do litoral, no estado sardonicamente chamado de Minas Gerais.

A extração impiedosa do ouro moldou o contorno urbano e a estratigrafia social da região, mas foi somente após o esgotamento desse minério que os olhos se voltaram para os vales ao redor da cidade de Itabira. Já em 1720, a área no sopé de uma “montanha brilhante” havia entregado seu escasso ouro de aluvião aos irmãos Farias de Albernaz – eles ali haviam construído uma capela, cercando-a com um punhado de casas de colonos. Dois séculos depois, em 1910, os depósitos de ferro de Minas Gerais foram finalmente anunciados no XI Congresso Internacional de Geologia, em Estocolmo, intensificando a especulação dos investidores estrangeiros pela hematita do estado.

A montanha de Itabira já havia há tempos recebido um novo nome, o Pico do Cauê. Agora, os mapas mundiais de minério a colocavam na ponta noroeste de um arranjo estranhamente geométrico: o Quadrilátero Ferrífero, uma das províncias minerais mais lucrativas do Brasil, que se estende por cerca de 7.000 km2. Em pouco mais de um século, a topografia desse quadrado cartográfico vem se achatando.

“Nossa primeira visão do mundo”, escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade sobre o Pico do Cauê. Ele também o descreveu como “inconsciente, calmo”. Comentando o imaginário do poeta, José Miguel Wisnik diz que o pico era um “lugar magnético de fantasia original”; era uma presença saturnina “de cujo interior era impossível sair”.

Aos pés da montanha nasceu Carlos Drummond de Andrade, nasceu minha avó, nasceram inúmeros seres até que o minério começou a desnudá-la por dentro. Dessa montanha cambriana de mil nomes, o único que restou foi o que lhe deram os que a entregaram à mineração. O nome agora é um vazio.

O Pico do Cauê é uma cratera, o oposto exato de uma montanha. * O Pico do Cauê é apenas uma das muitas montanhas de Minas Gerais devoradas pela mineração. Ou melhor, deslocadas.

Separados dos elementos considerados preciosos por aqueles que os exploram, os resíduos resultantes das montanhas foram inicialmente abandonados em áreas abertas e expostas, acabando por assorear os leitos das bacias do Rio Doce e do Rio das Velhas. Mais tarde, quando a legislação ambiental foi revisada, o destino mudou: trituradas e derretidas com produtos químicos tóxicos, as montanhas agora se acumulam nas centenas de barragens de rejeitos que contaminam a região. Em 2015, uma dessas barragens se rompeu na cidade de Mariana, na mina da Samarco. Apenas quatro anos depois, outra barragem, administrada pela Vale, rompeu-se no município de Brumadinho. A lama de rejeitos de mineração que transbordou desses dois desastres causou mortes humanas e não humanas, deslocou comunidades, impactou sistemas fluviais e marítimos e espalhou rastros de metais tóxicos por quase 50 cidades situadas ao longo das artérias das bacias hidrográficas. Os casos foram particularmente devastadores, mas, nos últimos 20 anos, ocorreram pelo menos outros sete eventos do gênero.

Muitos ainda chamam os desastres de “acidente”. Muitos ainda ignoram o fato de que, entre as 790 barragens de rejeitos existentes hoje no Brasil, mais de 200 foram classificadas como de “alto potencial de dano”: assim como as de Mariana e Brumadinho, elas estão localizadas rio acima, em áreas particularmente povoadas, representando um alto risco para o meio ambiente. Muitos também ignoram que, de acordo com as avaliações da época, ambas as barragens tinham estabilidade garantida e medidas de controle de segurança atualizadas, apresentando “baixo risco de rompimento”. Hoje, 45 do total são avaliadas como de “alto risco”.

Rejeitos de mineração: que nome triste para uma montanha.

E então, depois de todos os morros terem sido escavados, na planície, só resta instalar a fazenda de gado.

 

Camila de Caux é antropóloga e escritora. Concluiu seu doutorado em Antropologia Social no Museu Nacional do Brasil em 2015 e é coautora do livro Araweté: um povo Tupi da Amazônia (com Eduardo Viveiros de Castro e Guilherme Heurich, Sesc 2017). Camila é co-editora da revista online aperfectstorm.net


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