Publicação produzida em 2023 na Oficina do Cego, em Lisboa. Reúne imagens realizadas em 2022 durante incursões ao vulcão Etna, na Sicília, no âmbito da residência artística In Situ. O texto, de Gui Vernize, foi desenvolvido no mesmo ano durante um exercício de escrita proposto pela artista na residência Movimento, na Ilha Terceira (Açores), explorando mitos de origem e temas como criação, amor e morte a partir de elementos vulcânicos.
Impresso e realizado inteiramente de forma manual em serigrafia e tipografia.
Publicação 2023
dimensões: 23x32cm
tiragem: 60 exemplares
texto: Guilherme Vernize
impresso manualmente em serigrafia e tipografia na Oficina do Cego / Lisboa
Depois da Partida é um trabalho que aborda a matéria mineral e suas dimensões humano-cósmicas. Um trabalho sobre o tempo, as montanhas, e os afetos. Um percurso expositivo em capítulos, guiado pela gravura e alimentado por fotografias, vídeo, som e texto.
Venho de Minas Gerais, no Brasil, estado onde o desaparecimento de montanhas devido ao extrativismo é uma constante histórica. O projeto Depois da Partida tem origem em trabalhos anteriores relacionados com montanhas, pedras e o solo colonial. As obras exploram formas de simbolizar contrastes entre dimensões e rasuras. Entre o tempo natural e o tempo humano, entre a construção e o descarte. Aqui, opõem-se e fundem-se magnitudes. O tempo humano junta-se ao tempo cósmico pela extensão de sua mitologia, de seus contos e devaneios. A contagem do tempo geológico acelera-se com os desmoronamentos do Antropoceno. Em vários dos meus trabalhos, essa dupla perspectiva coloca-se como central para a compreensão de relações históricas e a constituição de memórias e ficções coletivas.
O percurso de Depois da Partida se inicia pela minha narrativa pessoal, marcada pelo desmoronamento sensível de uma parceria amorosa e artística de longos anos, que coincide com o desabamento de uma grande pedra na casa dividida com meu parceiro nas montanhas de Minas, nosso espaço de pesquisa comum. A queda se consolida pelo colapso político do meu país naquele mesmo ano, marco de mais uma erosão. Em fuga por outras cordilheiras, os caminhos se abrem para explorar novas ficções de corpos-geologia.
Buraco: em Minas Gerais, as pedras são devoradas. Extrai- se o minério cor de sangue vermelho, que percorre novas rotas, distintas daquelas outrora percorridas pelo ouro.
Cabeça de Anta era Boi: em minha nova morada, as pedras imitam o movimento do mar.
Erupção, Sobre os Afetos, Estrépito e Arrebentação: para sempre, os vulcões explodem, liquidam e fertilizam a terra. Ciclo perpétuo de uma história não linear.
Vertigem e Deslize: o degelo, o medo do fim se manifesta como vertigem social.
Um projeto que busca capturar o movimento das montanhas.
Em ambas as terras, novas perspectivas sobre o amor. As reconstruções só poderão ser mediadas pelos afetos.
Guilherme Vernize
Guilherme Vernize
texto elaborado por meio de escrita inconsciente, a partir de um exercício proposto pela artista durante a residência artística Movimento, realizada na Ilha Terceira, Açores, Portugal.
Criar é explodir, e se espalhar. A consequência o novo, que ocupa o espaço do que já estava lá. As erupções foram sempre parte do todo e os vulcões, porta-vozes das montanhas, cospem para céu o calor da terra. A lava derrete, seca e vira pedras e paredes dos habitantes daqui.Criamos porque um dia fomos criados, e entramos em erupção quando o magma já não cabe dentro da montanha.
Antes da primeira manhã, o poder da criação estava aprisionado em baixo do solo. De que adianta magia, quando abafada sob a casca dura da terra? Então, quando desceram do céu as bolas de fogo - cuspidas por algo de fora daqui - os furos foram feitos. 3 bolas formaram 3 buracos em 3 montanhas e então, o sangue da ilha verteu, humedeceu o solo seco e a primeira árvore brotou, o primeiro rio escorreu e a primeira nuvem subiu ao céu. Nas veias de cada habitante, habita a lava que explode para fora dos vulcões e das bocas.
A terra treme e anuncia um fim, montanhas vertem o sangue quente e em troca querem o sangue que é nosso. Sangramos e lamentamos, pelo fim do que já foi. A vida e a morte são o leito e a superfície do rio, assim como a lava e as pedras. Lamentamos, mas jamais nos queixamos, pois sabemos que o sangue derramado transborda apenas porque existe. Sem água não há ilha, sem lava não há chão.
Morremos porque vivemos, explodimos porque vivemos em paz. Choramos porque sorrimos e nunca, jamais questionamos a capacidade do fim, de criar começos e abrir buracos no solo, como as 3 bolas de fogo que caíram do céu, para nos garantir acesso á magia da terra. O lamento é apenas a lembrança de que temos algo bom, e por isso, quando os vulcões entram em erupção aplaudimos e choramos, de tristeza e também de felicidade.