Deslize é uma série que investiga o derretimento dos glaciares Aneto e Maladeta, localizados nos Pireneus espanhóis. O projeto explora as dinâmicas entre a constância e a instabilidade das forças naturais, a expansão e contração da matéria, assim como o deslizamento e a gravidade das ações antropogênicas. Utilizando a metáfora do buraco negro, a série reimagina as relações e equilíbrios que estruturam os espaços, questionando as tensões entre presença e vazio, permanência e transformação.
Projeto desenvolvido na residência artística Centre d’ Art La Rectoria- Barcelona, Espanha
Série de oito gravuras em metal (água-forte) e instalação sonora. Fotografias dos glaciares dos picos Aneto e Maladeta – Pireneus, Espanha.
Gravidade
Texto: Cristiana Tejo, Diego Garcez, Flavia Regaldo, Gui Zorato, Sonia Távora, Yuli Anastassakis
Voz: Bárbara Faustino, Catarina Vieira, Diego Garcez, Flavia Regaldo, Judite Jóia, Luísa Fidalgo, Rui Pedro Mota
Colaboração: Tiago Matos
Depois da Partida é um trabalho que aborda a matéria mineral e suas dimensões humano-cósmicas. Um trabalho sobre o tempo, as montanhas, e os afetos. Um percurso guiado pela gravura e alimentado por fotografias, vídeo, som e texto.
Venho de Minas Gerais, no Brasil, estado onde o desaparecimento de montanhas devido ao extrativismo é uma constante histórica. O projeto Depois da Partida tem origem em trabalhos anteriores relacionados com montanhas, pedras e o solo colonial. As obras exploram formas de simbolizar contrastes entre dimensões e rasuras. Entre o tempo natural e o tempo humano, entre a construção e o descarte. Aqui, opõem-se e fundem-se magnitudes. O tempo humano junta-se ao tempo cósmico pela extensão de sua mitologia, de seus contos e devaneios. A contagem do tempo geológico acelera-se com os desmoronamentos do Antropoceno. Em vários dos meus trabalhos, essa dupla perspectiva coloca-se como central para a compreensão de relações históricas e a constituição de memórias e ficções coletivas.
O percurso de Depois da Partida se inicia pela minha narrativa pessoal, marcada pelo desmoronamento sensível de uma parceria amorosa e artística de longos anos, que coincide com o desabamento de uma grande pedra na casa dividida com meu parceiro nas montanhas de Minas, nosso espaço de pesquisa comum. A queda se consolida pelo colapso político do meu país naquele mesmo ano, marco de mais uma erosão. Em fuga por outras cordilheiras, os caminhos se abrem para explorar novas ficções de corpos-geologia.
Buraco: em Minas Gerais, as pedras são devoradas. Extrai- se o minério cor de sangue vermelho, que percorre novas rotas, distintas daquelas outrora percorridas pelo ouro.
Cabeça de Anta era Boi: em minha nova morada, as pedras imitam o movimento do mar.
Erupção, Sobre os Afetos, Estrépito e Arrebentação: para sempre, os vulcões explodem, liquidam e fertilizam a terra. Ciclo perpétuo de uma história não linear.
Vertigem e Deslize: o degelo, o medo do fim se manifesta como vertigem social.
Um projeto que busca capturar o movimento das montanhas.
Em ambas as terras, novas perspectivas sobre o amor. As reconstruções só poderão ser mediadas pelos afetos.
"Sobra a proporção das Formas", Galeria Coletivo Amarelo 2025 _ Lisboa / Portugal
João Pedro Soares
Giulia Lamoni e Margarida Brito Alves
João Pedro Soares
Talvez tudo se inicie numa montanha, no despertar da terra erguida em altos cumes, em ancestrais sedimentações de espanto e mistério.
Por aí diante, na descida das escarpas ingremes, a vida acontece, alberga-se nas fendas, reproduz-se nas encostas, alimenta-se nas grutas. Talvez seja por isso, também, que quando uma montanha desaparece, uma parte de nós deixa de existir, e interrompe-se algo no diálogo multiespécies onde nos inserimos. O vazio acomete-se repentino numa paisagem onde, apesar dos esforços de novos mantos vegetais, fica sempre aquele espaço por preencher. Uma cicatriz.
O trabalho de gravura de Flavia Regaldo parte precisamente destes pressupostos, de um lugar de fala alicerçado no ecossistema de campo rupestre de Minas Gerais e dos incessantes processos extrativos nesse território: se em tempos distantes e coloniais se ocupava este lugar numa desenfreada extração de ouro e diamantes, agora perpetuam-se os mesmos gestos de violência ecológica, no que é atualmente a extração do minério de ferro. Montanhas desaparecem do dia para a noite.
Mediante este estado de coisas, Regaldo apresenta na galeria Coletivo Amarelo a exposição Sobre a proporção das formas, com curadoria de Giulia Lamoni e Margarida Brito Alves. Trata-se de um mergulho nas últimas investigações da artista, que, apesar do percurso multidisciplinar (contando com obras de arte visual, desenho e instalação), tem vindo a especializar-se em gravura. Deste movimento criativo resultam as séries Deslize e Morfológicas, ambas iniciadas em 2024, e que contemplam semelhantes preocupações face à relação humana com a matéria mineral, compondo a maior parte da exposição. Mas também duas instalações Oscilação (2025) e Íngreme (2025). A primeira é composta por serigrafia em tecido assente numa estrutura de ferro, e a segunda é formada por placas de cobre gravadas e suspensas numa armação metálica.
Por sua vez, a série Deslize ocupa-se com a questão do degelo glaciar e surge de uma residência em Espanha para pensar este fenómeno nos Pirenéus espanhóis, em particular, nos Picos Aneto e Maladeta. Num conjunto de seis gravuras em metal e água-tinta, em tons avermelhados de espantosa nitidez, observam-se os relevos acidentados destes cumes, e convoca-se uma procura por captar os movimentos da cordilheira, estabelecendo-se uma relação contemplativa com o tempo geológico, num jogo de escalas entre humanidade e mineralidade que incita a consciência acerca das diferentes – mas também coincidentes – formas de encarar o espaço e o tempo que habitamos em conjunto com as montanhas.
A série Morfológicas, por sua vez, compõe-se de uma série de dez gravuras – também elas em metal e água-tinta – e parte de um material mais amplo de Regaldo, na recolha de arquivos e mapas, para refletir acerca de questões que parecem incidir sobre aquilo que poderia ser uma “afetividade geológica”. Isto é, se numa primeira instância observamos um pendor cartográfico, uma observação aérea sobre o território, onde o uso de mapas geomorfológicos encaminha uma detalhada atenção aos contornos, desníveis e elevações, fazendo-nos perscrutar intimamente as formas e proporções montanhosas; num segundo momento Morfológicas começa a mergulhar no solo, num estonteante aterramento, onde a gravura se torna microscopia, onde o que antes parecia ser mapa, acaba por se tornar micro-organismo.
Surgem também palavras convocadas no que a artista assume enquanto escrita inconsciente: “Caminho por voltas, caminho por séculos, caminho por orlas, caminho…” onde se torna impossível não pensar na famosa asserção do conservacionista e filósofo ambiental Aldo Leopold: “Pensar como uma montanha.” E nisto, não só pensamos como ela, como também nos tornamos nela, naquilo que o depurado trabalho artístico e investigativo de Flavia Regaldo consegue, em suma, convocar: uma reflexão de proximidade sobre montanhas, tempo e afetos.
Patente na galeria Coletivo Amarelo, em Marvila, até 24 de janeiro de 2026, a exposição é uma oportunidade de conhecer um trabalho estimulante acerca das relações que estabelecemos com o mundo natural. A entrada é livre.
BIOGRAFIA
João Pedro Soares (Almada, 1995) é cineasta, investigador e escritor. Licenciado em Artes e Humanidades pela Universidade de Lisboa, fez mestrado em Argumento e Realização na ESTC. O seu trabalho abrange cinema, fotografia e escrita, com foco nas relações entre humano-natureza, ecologia, futuros regenerativos e na interseção entre arte e agricultura. É doutorando em Estudos Artísticos na NOVA FCSH, com investigação sobre ecologia no cinema documental português contemporâneo. Realizou as curtas-metragens premiadas “Retrato de um homem enquanto ilha” (Prémio Novos Talentos Fnac 2021) e “A Incessante Conquista da Escuridão”, ambas exibidas em grandes festivais. Publicou ensaios, contos e poesia.
Giulia Lamoni e Margarida Brito Alves
“Stones, like us, stand at the intersection of countless lines crossing one another and receding to infinity, at the center of a field of forces too unpredictable to be measured; and we awkwardly call the result chance, hazard, or fate.”
Marguerite Yourcenar, “Introduction” em Roger Caillois, The Writing of Stones, Charlottesville, University Press of Virginia, 1985, p. xix.
Particularmente atenta à vida mineral e aos seus ciclos, movimentos e transformações, Flávia Regaldo (Belo Horizonte, 1984) tem vindo a desenvolver um trabalho em gravura que explora diferentes técnicas e sensibilidades. Nessa prática, as relações que estabelece com o mundo natural articulam-se com experiências e narrativas pessoais através de um singular processo de inscrição.
As formas, mas também as falhas, os acidentes, as fissuras e fracturas, ou as reconfigurações que esse mundo lhe oferece constituem-se como pontos de partida de um exercício que tanto se joga na história e nos seus vestígios, como na projecção e na imaginação.
É a essa pesquisa, elaborada em torno da interligação entre uma observação crítica, uma dimensão poética e o ofício da gravura, que a exposição Sobre a Proporção das Formas dá continuidade, reunindo trabalhos recentes das séries Deslize e Morfológicas, e colocando-os em diálogo com peças tridimensionais.
O conjunto de obras apresentadas explora diferentes formatos e materialidades, e propõe um desdobramento, ou uma ampliação, da própria gravura e dos seus processos. Assumindo uma componente experimental, em alguns trabalhos a gravura incorpora a palavra escrita, enquanto noutros, e em paralelo, procura um lugar para além dos limites da superfície bidimensional, ao prolongar-se, ou compor-se, no espaço.
Se as obras desta exposição se encontram, desse modo, numa situação instável perante os espaços que recriam e ocupam, simultaneamente questionam as noções que temos de tempo, de memória, de afecto e de paisagem, tal como a relação que com elas criamos.
Ao agir em diferentes escalas – que variam entre a presença imponente das montanhas em Deslize e a geografia celular dos mapas em Morfológicas – e ao convocar temporalidades distintas – a instantaneidade da captação de uma imagem fotográfica e a prática lenta e laboriosa da incisão –, os trabalhos de Flávia revelam um olhar cuidado, que oscila entre o (aparentemente) mais próximo e o mais distante, entre as alterações que moldam o corpo da montanha e a ficção do desenho.
Nesse sentido, as linhas de separação entre o traço – as palavras e as linhas gravadas sobre o metal, impressas em papel ou em tecido – e os signos delineados pelas rochas, pedras e montanhas, nos seus movimentos flagrantes ou impercetíveis, parecem aqui encontrar a possibilidade se conectar e suturar.
Reconfigurada através do gesto que fixa a sua representação, e dando corpo à textura do mundo lítico, a paisagem contemplada, mas também examinada e vivida, não é aqui perspetivada como inerte ou passiva, mas como viva e actuante – convidando-nos a participar num encontro cujos contornos permanecem por definir.