Flavia Regaldo

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Abrupta

2025


Na costa, as falésias. Emaranhadas em movimento sutil. Escancaram o aberto
no qual tudo é energia. Uma latitude, uma diagonal, qual a medida que sobressai? Nem tudo é reta, e a barriga das divindades engole e digere, os novos vilarejos, as antigas civilizações.

Série de oito gravuras em metal (água-forte).
Fotografias do litoral da Bahia – Brasil. Praia da Lagoa Azul.

Detalhes das obras
  1. Abrupta VI_ gravura em metal_ tiragem 9_ 35x25cm
  2. Abrupta V_ gravura em metal_ tiragem 9_ 50x35cm
  3. Abrupta III_ gravura em metal_ tiragem 9_ 50x35cm
  4. Abrupta VII_ gravura em metal_ tiragem 9_ 35x25cm
  5. Abrupta II_ gravura em metal_ tiragem 10_ 100x70cm
  6. Abrupta I_ gravura em metal_ tiragem 10_ 100x70cm
  7. Abrupta VII_ gravura em metal_ tiragem 9_ 35x25cm
  8. Abrupta IV_ gravura em metal_ tiragem 9_ 50x35cm
EXPOSIÇÕES

“Rota dos Ventos”, Galeria Plato 2025 _ Porto / Portugal
“The Extractive Gaze: Data, Soil and Body”, Galeria Gaat 2025 _ Lisboa / Portugal


textos
Exposição: The Extractive Gaze: Data, Soil & Body

JP Galvão


Exposição coletiva com Fernando Moletta, Flavia Regaldo, Natália Loyola, Pedro
Gramaxo, Pedro Pedrosa Fonseca, Stephanie Monica & Diogo Amorim.
Curadoria: JP Galvão


“Fui lançado num estado de maravilha e admiração. Estava no processo de testemunhar o desvelar dos mistérios do mundo subterrâneo!”
— Jules Verne, Viagem ao Centro da Terra


O grito de descoberta de Verne ecoa no nosso presente, mas seu significado mudou. O subterrâneo contemporâneo já não é apenas um estrato geológico; ele é a mina de dados, a amostra biológica, a memória arquivada sob a pele. Já não viajamos ao centro da Terra, mas ao núcleo extraído da nossa própria existência.

Certa vez, num dia de inverno, eu estava diante de uma vasta paisagem de falésias no sudoeste da Inglaterra — cercado pelo mar, pelas rochas, pelas nuvens, pelo solo. Fui absorvido pela crueza daquilo, pela necessidade de compartilhar esse encontro com outro: um amigo, um amante, alguém que compreendesse essa força silenciosa entre corpo e terra. Como tantos de nós, eu carregava um dispositivo que estende o meu olhar e captura presenças. Aquele momento tornou-se não apenas uma fotografia, mas uma impressão de dados — um eco digital de uma experiência incorporada. Estamos aqui, nesta terra, e simultaneamente lá, na nuvem. Uma fotografia é feita; ocorre uma extração. (nota pessoal do curador, Dezembro de 2018)

Esta exposição, The Extractive Gaze: Data, Soil & Body, explora os sistemas paralelos de controle que veem tanto a pele da Terra quanto a pele humana como territórios contestados. O olhar colonial que antes mapeava a terra para a extração agora opera como olhar biométrico e corporativo, ainda uma questão de guerra e colonização, erosão, desertificação e limpeza étnica. Nossos rostos e impressões digitais desbloqueiam dispositivos; nossos gestos alimentam a nuvem; nossos movimentos na cidade são rastreados; nosso código genético torna-se recurso para impérios farmacêuticos. Como alerta a teórica Shoshana Zuboff em A Era do Capitalismo de Vigilância, “O objetivo agora é automatizar-nos.” Somos matéria-prima. O “eu virtual” é o novo petróleo, minerado, refinado e distribuído por circuitos invisíveis de poder.

Nesse sistema, o olhar torna-se ferramenta de extração. É o modo de ver que enquadra seu alvo — seja uma floresta, um corpo d’água, ou um corpo humano — como objeto disponível para ser tomado. A pele da Terra é arrancada de seus minerais, seu petróleo, sua vida — enquanto a pele humana, também, é minerada para dados, reduzida a código, imagem e rastro biométrico. O paralelo não é metafórico, mas material.

Como resposta, os artistas desta exposição propõem outro modo de olhar: um olhar mais profundo, mais atento. Apresentam obras que são retratos da terra em diferentes tons e perspectivas. Que se relacionam com materiais elementares — pedra, óleo, argila, solo, papel, resina — e dispositivos tecnológicos, criando ligações que nos levam a reconsiderar nossa

relação com essas camadas. O solo guarda fósseis, sementes, minerais — uma memória geológica de transformação. Nossa própria pele guarda DNA, cicatrizes, e a memória do toque e do trauma — uma memória biológica de intimidade e sobrevivência.

Ao percorrer o espaço, você é convidado a escutar, a observar as texturas e o zumbido dos dados. Aqui somos convidados a permanecer — a olhar por mais tempo, a sentir a porosidade da nossa presença. A terra, em suas muitas formas, não é um pano de fundo passivo. Ela nos devolve o olhar. Num mundo de extração constante, como podemos passar de recurso a ser minerado para corpo em contato recíproco com a terra?


Exposição_Rota dos Ventos

Maria Miguel von Hafe


Rota dos ventos 05.04 — 10.05.2025
Com/With: Ana Grebler, Flavia Regaldo, Julia Baumfeld, Juliana Matsumura Laura Caetano, Ska Batista. Curadoria/Curated by: Ana Grebler


Talvez um texto seja, no fundo, um jogo de ritmos, de passos, do tempo que demora entre uma palavra e outra. Talvez um texto seja um guia. Imagine-se que levo uma bandeira, ou duas. Free tours.

Este é um texto sobre um conjunto de grafismos, não, de grafias, não, de gravuras. Gravuras. Gravar. Tempo. Pelo tempo. Através dele. Tal como a escrita, a impressão. A expansão, o alcance. Longe, vai longe e não é único. Lá longe. Para lá. Para cá. Ir e voltar. Um continente, dois continentes. Exercício de imaginação: ali! aqui! além! acolá! A gravidade. O peso. O movimento. Vamos! Mas a preguiça... Arrasto. Tração.

Atrito. Pois é mentira - o tempo e a distância. É mentira e pesa no corpo. Viagens de dez horas são viagens de dez anos. E quanto tempo demora a criação? Quanto tempo demora o encontro? Quanto tempo passamos num lugar e quanto tempo demora a ser nosso? Descobrir. Desenhar. Desenhos na terra. Na areia. Na lama. Sulcos. Tinta (quando penso em sulcos penso sempre em tinta). Impressão. Toque, pele. Papel. Imagem. Mapa. Corpo. Mão. Tinta, de novo. O desenho da palma
das mãos. O destino traçado. Já de longe, já de sempre. O caminho a ser percorrido. O caminho cortado. As viagens e os outros. Que nos atravessam, que nos encontram, que nos procuram. O rio e o mar.

O que vai e continua a ir, e o que volta. Para sempre. Fosse esse o seu destino, ir para depois voltar. E nós, traçadas no tempo e desenhando o espelho daquilo que nos rodeia. Das montanhas do nosso corpo, das vozes que, afiadas, perfuram. Fundo, profundamente. Que nos dizem - volta. Ou então - fica que eu vou ter contigo. O mundo é uma tradução daquilo que nos ocupa no íntimo. Dos traços. Do carácter. Do mar como se soubesse da sua dimensão: imensa, infinita. Viagens de dez horas que são... impossivelmente eternas. O tempo que passa

e a lonjura. Nunca mais, não. Nunca. Que piso é este? Lembro-me de olhar a lua e me rever nela. Vinte e oito dias. Tudo no mundo e à sua volta parece mostrar-se em nós. Como se fôssemos parte dele. Como se fôssemos mundo, terra, natureza, paisagem. Como se fôssemos paisagem. Como se fôssemos lua, sol, água. Como se fôssemos

noite, bruma, trevas. Como se fôssemos e como o somos. Como o contemos, como o transparecemos. Como emudecemos e como nos derretemos. Como enregelamos, como choramos. E como é nessa manifestação insensata que seremos capazes de olhar e perceber: por ali! A porta abrira por entre as lágrimas. Como uma bússola, o mar sabe sempre onde voltar.