Flavia Regaldo

Menu

Ainda que dura

Flavia Regaldo / Aruan Mattos

2019


Ainda que dura


AINDA QUE DURA é uma pesquisa desenvolvida sob o olhar da paisagem montanhosa de Belo Horizonte. Partindo da matéria mineral para a relação histórica da cidade com suas montanhas e pedreiras, o trabalho apresenta 3 linhas de pesquisa relacionadas a 3 cinturões da cidade:

1 – A Avenida do Contorno, traço fundamental da cidade planejada

2 – As Pedreiras originárias, de onde se extraiu a Matéria Primeira da Nova Capital: Carapuça, na regional Leste; Acaba Mundo, Centro-Sul; Morro das Pedras, Oeste; Viação Prado Lopes, Noroeste; Lagoinha, Nordeste

3 – A serras que circundam Belo Horizonte – em constante mutação pela expansão da cidade – tendo a Serra do Curral como a borda mais imponente

A matéria que alimenta a cidade aparece nas pedras de monotipias, gravuras monocromáticas de tiragem única desenvolvidas em variações e séries.

Em outro momento, são inseridos marcos topográficos – chapas de bronze entalhadas – nas proximidades das 5 pedreiras relacionadas. A partir das suas coordenadas, traça-se virtualmente o desenho do seu polígono para, em seguida, se encontrar o centro deste. Nesta nova marcação é instalado um novo marco, indicando o primeiro centro geográfico da capital segundo a perspectiva das pedreiras.

​Em paralelo, são percorridas todas as ruas dispostas dentro da Avenida do Contorno e mapeados todos os pontos em que as Serras aparecem – geralmente nas frestas entre as edificações da cidade. A partir daí é realizada uma série em serigrafia destas vistas.

Exposições

“Ainda que Dura” Galeria Pedro Moraleida, Palácio das Artes, 2023_ Belo Horizonte/ Brasil
“Ainda que Dura” espaço ESPAI 2019, Belo Horizonte/ Brasil
“Habitar o Invisível, Co-habitar a Cidade”, Casa Rosada Gasmig, 2025_ Belo Horizonte/ Brasil
"Gráfico Grafia" Muse Histórico Abilio Barreto, 2020_ Belo Horizonte/ Brasil


Publicações
textos
Ainda que Dura

Aruan Mattos


Aruan Mattos em entrevista para Laura Barbi em Jornal Letras - Abril, 2022


O primeiro desenho do projeto foi colocado no papel em 2017, mas não é exagero dizer que Ainda Que Dura é um trabalho que começou a ser feito desde sempre. Quem é de Belo Horizonte ou convive com a cidade pode entender isso com facilidade. A montanha está aqui, a Serra do Curral é vista por toda a cidade e, no entanto, há uma tensão. É de conhecimento geral a cava atrás da Serra perto das antenas. No Taquaril, seu perfil verde é interrompido por uma nesga bege, como um índice do que está ali por trás. Da Serra do Rola Moça, o buraco está ao lado para quem quiser ver. E assim poderíamos seguir em sentido leste ou oeste no complexo montanhoso, e norte ou sul nas outras rochas, e a paisagem de buraco ainda é em eco. A retirada da montanha não é nova, o sentimento não é novo, está no convívio, é anestesiado.

Mineiro, palavra que acompanha quem nasceu aqui, antes de ser um gentílico, é uma palavra de cunho extrativista. Ou ainda, menor que a palavra, o sufixo, -eiro, tão curto e tão determinante para a lógica do que viveríamos. Não há outro estado no país que acompanhe tal sufixo. Entre -enses e -anos na sua maioria, estamos solos nesse quinhão, como se a atividade precedesse a região. E como um cruel e sagaz batismo, a palavra cumpre a sua função de forma estrita, já que uma vez sem mina, não há atividade para o mineiro. Outro nome mais próximo que encontramos é, sem surpresa, o brasileiro. É interessante lembrar que essa palavra antecede inclusive a nomeação do território como Brasil, já que brasileiros eram aqueles portugueses que comercializavam a madeira da árvore Pau-Brasil. Em triste ligação, mineiros e brasileiros cumprem sua sorte.

Ainda que Dura é um título que reverbera desse contexto. A começar por Dura, associada a duração ou a dureza. O desconforto da leitura parece vir ou de uma incompletude ou de algo fora do lugar. Aberto, pretende indicar mais de uma leitura: a duração do advérbio como um eterno contínuo ou, de alguma maneira paradoxal, a transformação do estado apontando para uma reticência, apesar da dureza da matéria. A primeira construção de Belo Horizonte está nesses termos. Cinco morros, aferidos como pedreiras, formavam um cinturão. No centro dele foi construída uma cidade com a matéria desses morros. Hoje essas pedreiras fazem parte de regiões que, em alguns casos levam seus nomes como Acaba-Mundo, Prado Lopes e Morro das Pedras, e ainda há a Carapuça, no Aglomerado São Rafael no bairro Pompéia e a Lagoinha, que hoje, pertence ao bairro Concórdia. Depois vieram outras pedreiras, algumas já foram desativadas e outras seguem em extração mineral. Dessas primeiras, apenas a Acaba-Mundo está em atividade, de forma subterrânea, mas com a morte a céu aberto. No início, o nome Acaba-Mundo se deu pela associação a um limite da cidade. A pedreira é situada ao sopé da Serra do Curral, uma fronteira bem marcada. Mas a leitura já não é outra? Se a montanha acaba, o mundo não acaba?

Hoje a subida até o alto da Serra do Curral é oficial, tem nome e o caminho foi traçado a máquina. Na entrada do parque homônimo há uma placa robusta de ferro oxidado com um trecho de Triste Horizonte do Carlos Drummond de Andrade. Nós somos essa civilização que cria a mineração, lamenta a mineração e cria uma homenagem à extinta montanha com um pedaço de lamentação em um pedaço de extinção. Drummond, tocado para sempre pela brutalidade no Pico do Cauê, sempre escancarou essa marca. José Miguel Wisnik no livro A Maquinação do Mundo recorda de uma publicidade da até então Companhia Vale do Rio Doce em contra-resposta ao poeta: uma imagem de um minério sobreposta pela seguinte frase: "Há uma pedra no caminho do desenvolvimento brasileiro".

Percorremos todas as ruas da primeira cidade planejada de Belo Horizonte e mapeamos onde se via as montanhas. Uma experiência singular estar entre vias retas, paredes longilíneas, rios retificados, sons em cadência maquinal, com as pernas e corpo em compasso orgânico, acidose láctica e com a mirada para a montanha na espreita, em jogos de cores entre o minério, as árvores, os raios do sol e as sombras projetadas. A ambivalência de dois mundos que se chocam. A montanha está logo ali, todos sabem, todos podem enxergar da cidade inteira, mas há uma certeza coletiva de uma construção de mundo em que ela estará sempre em segundo plano. Ela aparece em pontos, cortada por trás e cortada pela frente. A frase vem natural, sem esforço: há um desenvolvimento no caminho da pedra mineira. Um destino talhado a ponta seca. Varando o ferro em galeria vertical, cavando minas em palavra abissal.

 


Grave o horizonte

Nian Pissolati Lopes


O texto faz parte da publicação
Ainda que Dura Vol.2


A linha que faz o horizonte anuncia a gravidade


O traço constante, vário conforme a hora do dia, é de algum modo o que nos atém a um limite (nítido porque a distância disfarça o opaco) entre o que há de sólido, líquido, gasoso ou vamos lá, plasmático, entre as substâncias que por aqui circulam, nessa esfera imperfeita que é a terra cheia de água, porque assim alguém a chamou e assim um tanto de outros repetiram, sabe-se lá por quê, na realidade tenho aqui como hipótese, que é por certo lugar-comum (que, ato-contínuo, é como nós nos conseguimos dizer seja o que for), é que terra é, quer queira, quer não, aquilo que é limite – e limite porque faz sentir, pensar, agir, perceber e todos os verbos que se pode erguer sobre um lugar tido por estável (a imperfeição do adjetivo há de ser problematizada adiante) –, mas está claro que limites são vários, como várias são as substâncias, as crenças e o limite do limite, isso tudo pra falar que não se pode caminhar por sobre águas ou, vamos lá outra vez, aqueles que conseguem não somos nós, os que afirmamos que sentar, apertar o botão on do computador, abrir um editor de texto e escrever sinais de uma língua para que alguém leia, seja no fim das contas uma outra terra, um outro limite que faz com que cantemos, andemos, morramos, compartilhemos seja o que for.

Então, para começar outra vez, já que estamos de acordo que isso que escrevo é pedaço de terra, e tem perímetro, de onde torna-se lícito criar um começo, aspirar a um meio e tentar um fim, poderia dizer que o traço constante que desenha e cria o horizonte é o encontro inquieto, desenho contingente porque subsumido a todos os fatores que nós, os que não nos mantemos sobre águas, fazemos enumerar, e explicar, e decifrar, porque daqui o que mais sabemos criar são cifras para que sejam quebradas, dilaceradas, enfim, para que possamos subir no alto de alguns metros sustentados por milhares, centenas ou dezenas de nós mesmos e gritemos aos quatro ventos que está descoberta a lei das cifras (de duração declinável conforme os próximos tamponamentos e novas aberturas), escondida sabe-se lá onde, quando na realidade sabe-se bem que está e sempre estará guardada em nós mesmos, onde mais poderia estar, e nem todas as nossas insônias acumuladas poderiam travesti-la.

Portanto, para começar novamente este texto em queda, porque incerto, sendo que, se há certeza, há queda, já que, veja bem, são poucas as substâncias, pelo menos aquelas visíveis para nós, os que acreditamos na terra, que deixam de cair se têm por sob seu peso – a relatividade do peso é assunto para outra cifra – o ar, esse inconfundível nada que nos se faz notar de maneira tão improvável que optamos por não dar importância, mas é o tato que nos permite experimentar o ar quando em movimento, esse sentido tão distante da cifra, e talvez seja por isso que a música, essa cifra maior porque não somente cifra, se utilize dele para espalhar-se por todas as direções e ultrapasse barreiras ditas físicas, como o muro, a parede da casa, da sala, do quarto, o armário, o travesseiro, e entre pelo ouvido numa manhã de sábado, ultrapasse o tímpano e percorra cavidades, membranas, células e líquidos, mesmo você estando há alguns quilômetros de qualquer aparelho ou humano ou animal ou máquina ou coisa que emita barulho – mas isso obviamente é um exagero, porque o silêncio é cifra vislumbrada (extraindo desta conta poucas dezenas (?) de humanos que puderam estar fora dessa bola imperfeita que alguns de nós chamam terra, mesmo sendo a bola quase que água, assim como água somos nós, talvez haja ali o silêncio, nesse nada que nos é pronunciado como o intransigente vácuo) – e é ainda a música que, movendo-se por sobre o ar, quando grave, toca a pele, e não mais apenas os tímpanos, e a faz vibrar, portanto é o som, que tem como uma das pontas a cifra, que se mostra muito maior e lhe produz sensações táteis tão próximas de um empurrão, que não deixa de ser empurrão porque sutil, e é também a mesma música, que quando de encontro com a água, esse entreposto a meio caminho da terra e do ar, sugere ondas centrífugas num espetáculo plástico e simétrico que se esvai ainda harmônico até que deixe de existir para nós, os que entendemos a eletricidade, o logaritmo e o bóson de Higgs.

E como já era de se prever, já que detemos a arte de cifrar o decifrável para decompô-lo adiante, proponho começar novamente o texto, porque também como poderia ser antevisto, esse extrato de palavras tenta ser pluma, isto é, quer fugir da única certeza que poderia ter – e que na verdade tem, o que acaba por transformá-lo num grande capricho, como capricho é toda e qualquer cifra que inventemos, incluindo na conta a única, a última, a primeira, a vidamorte –, que nada mais é que o fim, seja ele satisfatório ou não, encerre ele algo ou não (e obviamente a negativa é a resposta), como se, sobrevoando o nada, ganhasse tempo (cifra criada para nos entediar), tomando como estradas os caminhos de ar que porventura possam ser criados e, como tal, fazer desvios e inventar rotas que seguem dízimas intraduzíveis (ainda que nunca promissoras a ponto de escaparem da metalinguagem), pelo menos para boa parte de nós, aqueles que acreditamos nas cifras, mas só até certo ponto, muito antes de elas se tornarem o mundo, como o são para aqueles que brincam com a ponta do lápis ou com os pontos luminosos do binarismo infinito de seus computadores, reduzindo e engrandecendo exponencialmente os astros e o que há fora e o que há dentro, no momento que fazem deles ilustração de seus números, e digo sua porque são muito poucos os que poderiam seguir esses caminhos, como escassos são aqueles que enfim detêm uma certeza tão absoluta sem justificá-la enquanto fé.

E para contradizer uma previsível lógica do texto, digamos que estamos no meio de um argumento, mesmo ainda não tendo saído do lugar, o que é grave, porque dentre as magias que nós, não só aqueles que nos chamamos humanos, mas uma porcentagem significativa das substâncias que estão nessa bola imperfeita que é a terra, para não dizer a própria terra e por que não tudo o que já conseguimos dizer como existente e para além dela, e portanto já não digo grande parte, mas tudo, tudo é energia, donde que é mudança, o que faz do estático sinônimo da inexistência, e, portanto, nós, que aqui estamos neste instante, em toda extensão cabível na imensidão, não provamos nem de longe o estável, e daí a necessidade de criá-lo, porque está nessa categoria de aspirações em que há pouco colocávamos o silêncio. E para propor uma torção pressentida, poderia salientar que enquanto uma aspiração é negativa porque em última instância se abstém dos afetos, a outra é positiva por ser antes de tudo ligação (não restrição) existindo inclusive dentro da própria música e por sobre os encadeamentos de notas que puxam notas, em construções erguidas exclusivamente do que se crê ser o cheio e o vazio.

E já que desfalcado do silêncio e do estável, este texto só pode fazer algo, que é cair na terra, e cair, veja bem, implica consumo de energia e, portanto, a troca é começo meio fim, possibilidade de existência, porque bastaria um ínfimo ponto, uma substância homeopática qualquer a recusá-la para que se materializasse o estacionamento, e pelo o que de dentro de nossa cabeça miúda podemos ter é como afirmar o impossível, o que nos permite afiançar que a existência é transformação, e que o comprometimento é o avesso do estático.

E para caminhar no terreno do meio, essa terra que me é por direito, porque d(n)ela eu criei uma concatenação de signos, mas sem preocupação com origens – direito portanto de escarafunchá-la, nada mais -, por acreditar que existe um tempo calculável para que um computador possa ordenar todas as palavras, maneirismos (e intenções) de uma língua, neste caso nosso bom e velho português (e estrangeirismos aqui e acolá), e criar um texto idêntico, e talvez uma ganância menor mas que faz bem ter, é pensar que a humanidade não tenha tempo suficiente para que outro ser humano possa sentar e escrever um texto tal qual esse que sai dessa eletricidade (que é consumo de energia) que acontece na câmara escura (que é minha cabeça) que faz com que meus dedos escrevam, escrevam, e meus olhos leiam e descubram sobre algo que nem mesmo eu sabia, mas veja bem, se não sou eu, quem mais poderia ser?, então a pergunta certa não é quem, mas o quê, e a resposta que minha própria cabeça pode dar (baseada no que outras cabeças deram, numa trajetória infinita, como a peça de dominó que cai invertida no tempo, desencadeando um descaminho indefinível, e vai parar sabe-se lá onde, porque isso até hoje nós não pudemos explicar) é que é a eletricidade, é a energia que explode e se torna cifra que caminha para baixo.

Cifra-elétrica-binária que se constrói por conta própria, no sentido de que propriedade é uma dessas invenções que alguém não pode se ater por muito tempo ou mergulhar por muito fundo porque restrita à questão da escala, e basta uma lupa vagabunda para mostrar que as misturas, as diferenças, os vínculos e para repetir uma conclusão, os comprometimentos, fazem da propriedade uma falsa questão.

E já que se concatenaram caminhos que não querem se explicar é possível ordinariamente negar o afirmado há pouco, admitindo que a única certeza da escritura, da qual ela não só não foge como não faz outra coisa senão buscar, é o fim, encontro com o chão (e que, portanto, todas possibilidades e curvas e vai e vem são o caminho mais curto para se chegar lá).

​Donde, finalmente, nos aproximamos do ponto central desse círculo imperfeito que é o texto: a gravidade.

Um corpo atrai outro e faz a existência existir. Estamos ainda permeando a argumentação que há pouco consumia-se para explicar a energia. Mas é grave aquilo que tem peso e, como tal, vai de encontro a tudo que o ar não sustenta. Ou digamos, sustenta em espaços de tempo que não nos dizem respeito, porque a realidade é mais uma questão de escala. Vê-se e faz-se acontecer em grandezas amplamente variáveis.

Donde finalmente chego ao começo e digo que o horizonte, essa linha certa, que nos toma as vistas, e nos faz ver um encontro, inteiramente inconstante porque sua agudeza limita-se a espaços de tempo que a nós, humanos, são insignificantes, porque da ordem dos segundos ou dos minutos, é o indício de que o encontro é possível, que é ele quem faz a terra ser terra, é a linha que evidencia que para que algo possa cair, foi preciso que criássemos o céu, que sabe-se lá porque até hoje não desabou sobre nossas cabeças e, que finalmente, toda essa massa de ar, invisível (uns dias mais, outros menos), circundada por outra massa de gás, e que faz, no fim das contas, com que a folha descolada da árvore chegue ao chão. E por que não dizer,

​grave é o horizonte,
que faz enfim o limite.

E por que não repetir

​grave é o horizonte,
que faz ainda o limite.

E por que não deixar-se levar pelos caprichos da língua:

​grave horizonte.

​E para suspender este palavrório, grafia do chão, tem-se que o azul e suas variações assumem uma importância improvável para além da teoria da cor, porque é ele, ou mais precisamente sua duração, que permite o vislumbre do limite e as linhas possíveis e desviantes e, portanto, o fundo, descoberta do arco da velha, é forma, e daí saber que o azul é terra, que o ar é terra, que a água nega a terra para que ela exista e a queda é a possibilidade do encontro que é energia e justifica o ponto que só existe para ser outra coisa adiante.
-
Nian Pissolati Lopes é antropólogo


Hiato

Elisa Marques


O texto faz parte da publicação
Ainda que Dura Vol.1


Todos os dias atravesso o rio Arrudas.
Por cima do viaduto, vejo as águas lá embaixo.
A cor das águas varia com a luz.
Passo no viaduto duas vezes por dia e lá de cima vejo também a avenida dos Andradas; seu fluxo de carros, em um sentido e em outro. As águas do rio correm sempre para o mesmo sentido.

O número de carros da avenida depende da hora do dia e do dia da semana.
Almoço, fim de expediente, segunda-feira, domingo, férias.
As águas e as pessoas se movimentam, o Arrudas e a Andradas.
Damos nomes e damos formas a esses fluxos.
Definimos limites, damos linha e damos corpo.

Todos os dias a cidade me atravessa.
Em meio aos sons que vibram em meu peito, o calor do asfalto em meus pés,
a grade fria em minha mão, cores e luzes em meus olhos, sou-estou no viaduto.
As águas do rio não têm nunca o mesmo sentido.

Uma tarde caiu uma chuva forte, o rio foi subindo muito rápido pelas paredes de concreto
até que uma imensa onda alaranjada tomou toda a largura da Andradas.
O viaduto ficou coberto de água, soltei as mãos da grade e desci com a correnteza.
Rodopiei naquele vale, enquanto os contornos se diluíam,
não podia mais distinguir os telhados das casas, as copas das árvores, as antenas dos prédios.
Restou no horizonte a linha da Serra do Curral.
A chuva diminuiu e por muito tempo vaguei boiando lentamente até alcançar a crista da montanha.
Lá de cima vi que do outro lado não há nada, é o vazio completo.
A montanha é uma casca fina, que contém a cidade.
Tudo que já esteve do outro lado agora está dentro da cidade.
A cidade é feita de montanha.

Mas, depois daquela chuva, a cidade virou um oceano
de água mineral.

água dura
pedra dura
gente dura

Passaram-se alguns dias e a água foi baixando.
E a cidade que pouco a pouco despontou mostrou-se como uma superfície única,
como se fundida em uma pele contínua, que antes eram os pisos, as fachadas, os limites dos bairros e a própria montanha-moldura.
Mas nada disso ficou estático, as pessoas, as águas, os carros, continuaram com seus movimentos a transformar a todo o tempo o que percebemos, o que somos, onde e quando somos. As formas, os fundos, os conteúdos e os continentes, as pistas e as bordas. Tornou-se impossível a estabilidade de um ponto. Nessa incrível vertigem, tudo podia ser inventado e nada nunca era.

Até que um dia a água esvaiu-se por completo. E a cidade seca foi lentamente rachando sob o sol. Frestas foram então surgindo e delas voltaram a se entrever coisas outras, oposições, contrastes.

E então de novo o viaduto se separou do rio e com ele voltou a existir a distância,
que todos os dias eu atravesso.

-
​Elisa Marques é arquiteta urbanista. Pesquisadora das águas urbanas, faz mestrado na Escola de Arquitetura da UFMG.


Belo Horizonte, suas serras e suas pedreiras

Alessandro Borsagli


O texto faz parte da publicação
Ainda que Dura Vol.1


A Serra do Curral del Rey faz parte de um importante complexo de montanhas que se estendem por cerca de 93 km na direção leste/oeste e pertencem ao Quadrilátero Ferrífero, mais precisamente à sua porção norte. Referência geográfica não só para Belo Horizonte, mas também para a região metropolitana, a Serra do Curral é um monoclinal que faz parte de uma pequena extensão de serras que se estendem desde a região de Carmo do Cajuru até as proximidades da cidade de Caeté, a oeste da Serra do Espinhaço.

A Serra do Curral é o testemunho do relevo de uma região notável pelas suas diversas orogêneses ao longo da evolução do planeta. Ao que tudo indica, a serra possuía uma elevação que ultrapassava os 4.000 metros, apresentando atualmente altitudes que atingem os 1.520 metros (Pico José vieira). Ou seja, o que se vê atualmente é o resultado de um processo erosivo diferencial, no qual as áreas mais suscetíveis à erosão sofreram maior rebaixamento em relação às áreas mais resistentes às intempéries.

As serras do complexo que compõem a porção norte do quadrilátero se apresentam com diversas denominações regionais. Assim, de oeste para leste, encontram-se: Serras de Itatiaiuçu e Igarapé, Serra Azul, Serra dos Três Irmãos, Serra da Jangada, Serra do Rola Moça, Serra do José Vieira, Serra da Mutuca, Serra da Água Quente, Serra do Curral del Rey, Serra do Taquaril e Serra da Piedade. Essas serras são transpostas por dois rios: o rio Paraopeba, pouco abaixo da cidade de Brumadinho, na garganta denominada Fecho do Funil, e o rio das Velhas, na altura de Sabará, onde suas águas encontram as duas porções do maciço, momentaneamente desconectadas pela sua passagem em direção às Gerais.

Conhecida e explorada desde o século XVIII, a Serra das Congonhas, primitiva denominação da Serra do Curral, era considerada o marco geográfico dos arraiais de Congonhas de Sabará e do Curral del Rey, povoados que surgiram aos seus pés nos primeiros anos do século XVIII. A serra, desde os tempos coloniais, era utilizada como ponto de referência para quem vinha dos caminhos dos Sertões para o arraial e para os outros arraiais e vilas que foram fundadas nas suas imediações. A serra não foi alvo assíduo dos mineradores que se espalharam por toda a região das Minas durante o século do ouro, salvo algumas exceções, como as concessões de lavras auríferas na Serra do Mutuca, da qual existem vários vestígios pouco estudados, e a pequena exploração que existiu na Serra do Taquaril, na segunda metade do século XIX. Atualmente, existem algumas minas de ferro em funcionamento no Complexo da Serra do Curral, na sua grande maioria nos municípios de Brumadinho, Itatiaiuçu e Igarapé, além das minas de ouro nos municípios de Nova Lima, Sabará e Caeté.

A Serra do Curral é basicamente composta por itabiritos e hematita, que geralmente se localizam nas partes mais altas formando e protegendo a crista da serra por serem mais resistentes ao intemperismo. Nas partes mais baixas da Serra, ocorrem a predominância de dolomitos e filitos dolomíticos, rochas mais suscetíveis ao intemperismo e responsáveis pela formação dos terraços existentes na região da Lagoa Seca, divisa entre os municípios de Belo Horizonte e Nova Lima.

O maciço delimita ainda toda a porção sul da sub-bacia do ribeirão Arrudas, onde faz o papel de interflúvio entre este e o ribeirão dos Cristais, ambos afluentes do rio das Velhas. Em contraposição à Serra do Curral, encontra-se a Serra da Contagem, que conforma a porção norte do vale do ribeirão Arrudas. Elas podem ser consideradas de grande importância para a história da capital mineira, uma vez que ela foi vislumbrada, concebida e construída na porção do sítio que se encontra entre as duas serras, no encontro dos ventos quentes do vale do São Francisco e dos ventos frios do Quadrilátero Ferrífero.

Nesse contexto, em meio às utopias urbanas e ao racionalismo geométrico da Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC), que se instalou no arraial de Belo Horizonte no ano de 1894, após a escolha do sítio para receber o novo centro administrativo do Estado, as serras eram não só guardiãs do líquido elemento e do frescor do qual o povoado de origem colonial era amplamente conhecido, mas também do granito, do mármore e da pedra sabão, elementos considerados imprescindíveis para materialização dos planos políticos para a construção de uma capital moderna, higiênica e eclética. Assim, a majestosa serra continha quase tudo que a CCNC precisava para levar adiante a construção da nova capital de Minas.

Nas extremidades do perímetro delimitado e em seus arredores, encontravam-se diversas pedreiras que forneceram os materiais necessários para a construção dos edifícios, do calçamento das ruas e avenidas e para a canalização dos cursos d’água e construção das galerias de água e esgotos. Em meio ao perímetro da nova capital, a posição geográfica de cada uma delas remete as antigas torres das cidades fortificadas europeias, uma vez que, localizadas em pontos estratégicos onde o horizonte era vasto, e a paisagem, bela, serviram como marcos de referência para a delimitação do perímetro e para a elaboração das plantas geodésica e topográfica do sítio estudado.

Em meio a todo esse cenário, quando Aarão Reis apresentou a Planta no ano de 1895, pôde se compreender que o projeto dava maior importância à perspectiva da Serra do Curral, que obrigatoriamente seria vista de toda a cidade planejada encaixada entre a serra e o vale do ribeirão Arrudas, vista ainda da zona suburbana, que buscaria uma relativa harmonia entre os seus arruamentos e as curvas de nível das montanhas limítrofes ao paredão. O Morro do Cruzeiro, ponto final da Avenida Afonso Pena, figurava como a divisa entre o natural e o racional, destinado a abrigar o novo templo dedicado a Nossa Senhora da Boa Viagem, no cume da cidade e no sopé das montanhas. A cruz que aí existiu, local de peregrinação dos curralenses impossibilitados de se dirigir ao pico do Curral del Rey, marcava o início da serra, que não se resumia ao paredão monoclinal.

Entre os anos de 1895 e 1897, cinco pedreiras forneceram os materiais necessários para a construção de edifícios e infraestrutura urbana, sendo que duas delas se localizavam na Serra da Contagem. Abaixo uma breve descrição das pedreiras:
- Pedreira da Viação ou Prado Lopes: a pedreira foi adquirida pelo Banco Viação do Brasil pouco tempo antes da escolha do arraial para sede da nova capital. Fica nas proximidades da região da Lagoinha, bem próximo ao centro da capital. O seu entorno abriga um dos aglomerados mais antigos de BH: o Aglomerado Prado Lopes, que herdou o nome de um dos seus arrendatários no período em que ainda era explorada.

- Pedreira da Lagoinha: localiza-se em frente à Pedreira Prado Lopes e atualmente abriga parte do bairro Concórdia. Aos seus pés está o campo de futebol do Pitangui.

- Pedreira da Carapuça: localizada na região leste da capital mineira, às margens da antiga estrada que ligava Belo Horizonte a Nova Lima e Sabará. Partes das suas terras estão atualmente ocupadas pelo bairro Pompeia e pelo Aglomerado São Rafael.

- Morro das Pedras: se localiza na vertente do Córrego das Piteiras, nos fundos do Hospital Madre Tereza. Sua área atualmente encontra-se ocupada pelo Aglomerado Morro das Pedras. De acordo com o Prefeito Christiano Machado (1926), era a pedreira de maior rentabilidade para a Prefeitura, devido à excelente qualidade das pedras para a fabricação de meios fios e paralelepípedos.

- Pedreira do Acaba Mundo: forneceu grande parte do mármore empregado no embelezamento de vários edifícios públicos e particulares da capital mineira. No início da década de 1950, passou a ser extraído o dolomito, com a finalidade de ser empregado na siderurgia. A exploração, em grande parte subterrânea, perdura até os dias atuais.

Após a inauguração da capital, ocorrida em 12 de dezembro de 1897, a Serra do Curral permaneceu praticamente intocada nas primeiras décadas do século XX, salvo a exploração da Pedreira do Acaba Mundo, as captações dos mananciais da Serra e do Cercadinho, a instalação das torres da Cia. Força e Luz nas cabeceiras do córrego da Serra, que conduziam à capital a energia gerada na Represa Rio de Pedras e as estradas que obrigatoriamente passavam pela serra, destacando-se a velha estrada para Villa Nova de Lima, abandonada alguns anos após a inauguração da capital, devido à dificuldade da sua conservação, no trecho correspondente ao entorno do Pico Belo Horizonte.

O acentuado crescimento urbano ocorrido a partir da década de 1920 acabou comprometendo o abastecimento de água da capital, em particular na zona suburbana que abrigava cerca de setenta por cento da população belorizontina. Buscando solucionar o iminente problema, o Governo do Estado, dentro dos planos políticos do então Presidente Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (1926-1930), deu início a inúmeras obras não só na capital, mas também por toda Minas Gerais. Na verdade, a segunda metade da década de 1920 caracterizou-se pelas inúmeras obras patrocinadas pelo Estado em Belo Horizonte, que já apresentava uma população superior a 80.000 habitantes no final de 1925.

Nesse contexto, o abastecimento de água era considerado prioritário para a capital mineira, sendo o Complexo da Serra do Curral crucial para a melhoria do fornecimento do precioso líquido. As serras do complexo já forneciam água para a cidade desde 1897, através da captação dos córregos do Cercadinho e da Serra, e no ano de 1912, através dos córregos Capão da Posse e Clemente.

A década de 1930 trouxe, além das profundas mudanças físicas, econômicas e sociais ocorridas após a Revolução de 30, o Decreto nº 24.642 (Código de Minas), que instituiu diretrizes para a exploração mineraria no Brasil. Poucos dias após o decreto, foi estabelecido pela nova Constituição que toda e qualquer exploração mineral empreendida no país, bem como pesquisas e concessões, só poderia ser realizada por empresas organizadas no Brasil e por seus cidadãos. Era o ponto de partida para a exploração em larga escala de um recurso explorado pontualmente desde as primeiras décadas do século XIX, extraído por pequenas companhias espalhadas pela região de Itabira e pelo Quadrilátero Ferrífero.

No que tange à exploração das pedreiras localizadas no perímetro da nova capital, a extração foi sendo aos poucos descontinuada, uma vez que o tecido urbano da capital avançava em direção aos maciços graníticos da Carapuça, Prado Lopes e Lagoinha. O Morro das Pedras foi explorada por mais algum tempo e o Acaba Mundo continuava a pleno vapor. É um momento no qual a exploração foi se deslocando para áreas localizadas na bacia do ribeirão da Onça, então a área rural do município de Belo Horizonte.

Os anos seguintes à criação do Código de Minas se caracterizam pela flexibilização das leis que restringiam a participação estrangeira nas explorações minerais no país. Entre trabalhos geológicos realizados em parceria com os Estados Unidos e argumentos favoráveis à participação estrangeira na exploração e exportação mineral, tiveram início os estudos visando à exploração mineral da Serra do Curral, a partir da concessão municipal para a perfuração de quatro túneis de pesquisa à montante da captação do córrego da Serra, próximo das suas cabeceiras. É importante ressaltar que a própria Prefeitura, detentora de grandes porções de terras ao longo da Serra do Curral, que eram altamente cobiçadas pela qualidade dos minérios de ferro, em particular a hematita compacta, que aflorava em diversos locais do maciço, já possuía planos de explorar as terras, vistas como imprescindíveis para equilibrar o eterno deficit financeiro do município recém-emancipado do Estado, no ano de 1947.

No ano de 1951, entrou em atividade, nas terras da exaurida pedreira do Acaba Mundo, a Mineração Lagoa Seca, de onde se extrai até a atualidade a dolomita, que supre a demanda siderúrgica no Estado, realizada atualmente de forma subterrânea. Nessa mesma década, o Complexo da Serra do Curral, cortado por velhos caminhos e por algumas estradas de rodagem, seria transposto por duas importantes rodovias federais que conectariam Belo Horizonte e arredores com os dois principais centros econômicos da região Sudeste, a BR-3 (BH-Rio) e a BR-55 (BH-São Paulo). Era o início do desenvolvimento urbano em direção às montanhas ferríferas que circundam a capital mineira, proporcionado pelo boom rodoviarista que se espalhava na mesma proporção dos veículos automotores, que passaram a fazer parte do cotidiano, dos valores e do imaginário de um país que buscava transpor o percurso natural do desenvolvimento à custa de elementos questionáveis de um pleno progresso.

Nesse ínterim, a cárstica Lagoa Seca, ou o que restava dela, visto que, desde a década de 1950, ela se encontrava dissecada pela BR-3, aos poucos desapareceu da paisagem. Sem água e sem proteção, a única lagoa natural dentro do perímetro da CCNC desapareceu nas décadas seguintes, a partir do avanço do tecido urbano para as terras da região sul. Para se ter uma ideia da sua importância, quando se construiu a represa da Pampulha, no final da década de 1930, era comum passar sobre a cidade bandos de Irerês, que faziam o trajeto entre a Lagoa Seca e a represa, cena inimaginável na atualidade.

Visto o cenário favorável para a exploração mineral no Brasil, nos primeiros meses do ano de 1958 a Hanna Mining, que obtivera autorização para atuar no país sob o título de Mineração Hannaco LTDA, adquiriu em Londres as ações da St. John del Rey Mining Co. visando o acesso às riquíssimas minas de ferro com cerca de dois bilhões de toneladas de minério de alto teor das montanhas.

Poucos meses após a aquisição do centenário grupo inglês, foi firmado um contrato entre a Hannaco, St. John del Rey e Cia Novalimense, sendo a companhia inglesa a acionista majoritária, para a exploração mineral das jazidas pertencentes às duas últimas, que ficaria a cargo do grupo estadunidense. Após o acordo firmado, foi criada, entre o mesmo grupo a Mineração Curral del Rey Ltda. pertencente a St. John del Rey. Era o indício que faltava para que o Governo do Estado solicitasse ao Departamento de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN) o tombamento da Serra do Curral.

Nesse momento, o Estado ainda reconhecia a importância da Serra do Curral para Belo Horizonte não só pela beleza cênica e paisagística, mas também cultural, histórica, hídrica e urbanística, visto que a cidade foi pensada e planejada para que se vislumbrasse o maciço de qualquer ângulo do perímetro planejado. José Francisco Bias Fortes, por meio do departamento jurídico do Estado, solicitou o tombamento da serra em nível federal, como um bem do patrimônio artístico nacional, com sua silhueta inconfundível e bem característica, tão ligada à nossa capital, ressaltando que o município de Belo Horizonte era o proprietário da superfície do maciço.

Entre pareceres e correspondências oficiais, no ano de 1960, o DPHAN apresentou a área a ser tombada, a qual englobava apenas a porção da serra voltada para a capital mineira, possibilitando assim a mineração da face norte do maciço. Uma vez inscrita após análise de recursos e mudanças no perímetro de tombamento inicial, no dia 21 de setembro, no livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico do DPHAN, era teoricamente vedada qualquer modificação paisagística do maciço a partir de então.

No entanto, o sedutor teor de cerca de 70% de ferro, aflorando nas vertentes curralenses, era agora visto como um inquestionável recurso para tirar a capital da penúria financeira, sem recursos para arcar com a rápida metropolização e as suas consequências decorrentes do processo. Nesse contexto, dentro dos limites impostos pelo tombamento federal, o município criou, no dia 30 de outubro de 1961, a empresa Ferro de Belo Horizonte (Ferrobel), que se instalou nas cabeceiras do córrego da Serra, onde já eram realizadas diversas sondagens próximas à captação de água. A jazida apresentava originalmente uma extensão de 2.800 metros contendo não só a hematita e o itabirito, mas também a dolomita, então explorada na Mina do Acaba Mundo.

A Ferrobel, de acordo com a administração municipal, foi criada para promover a industrialização do município a partir dos resultados financeiros alcançados pela exploração mineral. Um argumento curioso, visto que Belo Horizonte já havia passado pelo surto industrial pós-1930 e se encontrava em franca metropolização proporcionada exatamente pela consolidação da Cidade Industrial de Contagem.

O ano de 1962 iria marcar uma reviravolta na exploração mineral da Serra do Curral. O então presidente da república Jânio Quadros recebera, meses antes de sua renúncia, um relatório, que expunha as irregularidades nas concessões para exploração do minério de ferro, incluindo a lavra de Águas Claras, cuja averbação foi cancelada em 1962, a mando do ministro de Minas e Energia Gabriel Passos, que determinou a desapropriação das lavras cassadas que passaram a integrar uma sociedade cuja União seria sócia majoritária. Nesse contexto, o então presidente da Cia Novalimense (associada da Hanna na exploração do minério de ferro), Lucas Lopes, ex-ministro da Fazenda, ex-presidente do BNDS no governo JK e um dos sócios da Consultec, empresa que prestava serviços à dita Companhia, telegrafou para o presidente João Goulart. O objetivo era protestar contra a cassação dos direitos minerais da Companhia, da mesma forma que havia feito o embaixador estadunidense no Brasil dias antes, Lincoln Gordon, ao visitar a capital mineira, sendo recebido pelo Governador Magalhaes Pinto e por diversos segmentos da sociedade que louvavam a aliança para o progresso, motivo alegado para sua visita à sentinela das jazidas da discórdia

Em meio ao impasse Hanna/Cia Novalimense, que culminou com a confirmação jurídica do ato de Gabriel Passos e a busca por alternativas que viabilizassem a exploração, perante um Governo que buscava defender o patrimônio mineral do país, o município solicitou ao DPHAN no final de 1962 a liberação para exploração da área denominada Mina das Mangabeiras, não pertencente ao perímetro abrangido pelo tombamento, para a qual foi atendida positivamente, entrando a mina em funcionamento no ano de 1963, sob a gestão do prefeito Jorge Carone. O ano de 1963 pode ser considerado o ano em que se iniciou o desmonte da Serra do Curral, ao mesmo tempo que o tecido urbano da capital iniciava a subida da serra em direção às cabeceiras dos córregos das Mangabeiras e do Gentio localizadas em terras sem valor mineral.

O ano de 1964 representou uma reviravolta no caso Águas Claras, nacionalizada dois anos antes pelo Governo Federal a partir das irregularidades encontradas quando da liberação da área para exploração mineral. Após a destituição de João Goulart, a Cia Novalimense entrou com um novo recurso para reaver a licença de exploração mineral da serra. E entre mudanças e revogações no Código de Minas e acordos pré-estabelecidos anteriores a 01 de abril de 1964, sucedeu a associação entre a Hanna e a Companhia Auxiliar de Empresas de Mineração para a exploração das jazidas de ferro pertencentes à primeira, ocorrida no mês de novembro de 1964. Da associação nasce a Minerações Brasileiras Reunidas S/A (MBR), tão conhecida dos citadinos do Quadrilátero Ferrífero. Era o sinal verde para a instalação da mina de Águas Claras.

O enrijecimento da ditadura a partir de 1968 coincidiu com as liberações de exploração das minas pleiteadas há mais de dez anos, cabendo a Cia Novalimense a posse da jazida de Águas Claras no ano de 1970. Desse ano até o ano de 1973, quando teve início os trabalhos de exploração, foram realizadas pequenas mudanças no projeto inicial da Hanna, acordos entre a MBR e a Rede Ferroviária Federal para a construção de um ramal e o transporte do minério de ferro, mudanças de diretoria e a absorção oficial da Cia Novalimense pela MBR, visto que tal fato já havia ocorrido oito anos antes.

Nesse ínterim, a Ferrobel, que havia obtido a licença de lavra no ano de 1965, celebrou um contrato de venda de minérios com a MBR, comprometendo-se a pagar ao município um royalty de Cr$ 2,00 por tonelada. O início das atividades de Águas Claras, após a conclusão do ramal férreo que ligava a mina ao Ramal do Paraopeba, na altura da estação de Ibirité, foi o ponto de partida para a retomada de uma ferrenha discussão sobre a remoção da montanha curralense.

Em poucos anos, a serra já mostrava os resultados da mutilação ferrífera, agravado pelo destombamento de parte do maciço visando à exploração mineral, visto a impossibilidade (oficialmente alegada) do conciliamento entre os interesses privados e a proteção do monumento natural. Era o ápice do autoritarismo no país, e o período ditatorial militar (1964-1985) pode ser considerado um dos períodos áureos da exploração mineral no Brasil. Empresas estrangeiras, cujos interesses haviam pareado com a política econômica pós-1964, encontraram o caminho livre a partir das decisões unilaterais que caracterizam o período, em detrimento aos interesses coletivos e preservacionistas, no caso a proteção de monumentos naturais em um país que nunca havia dado importância à preservação de monumentos históricos, culturais e naturais. O destombamento da Serra do Curral e a complacência forçada com a destruição das áreas de interesse minerário era a consequência dos favorecimentos autoritários iniciados no ano de 1967 com o destombamento do Pico do Itabirito.

O início das atividades de Águas Claras no ano de 1974 e a rápida supressão da crista curralense acabaram por mobilizar a opinião pública de Belo Horizonte, historicamente avessa às perdas ambientais sofridas com o cenário urbano de eterna construção e de uma rápida e desenfreada expansão viária à custa da supressão do verde e das águas de uma cidade antes afamada pela sua coexistência, verdadeira floresta urbana que encantava a todos que a visitavam.

Em pouco tempo, a moldura da capital mineira, tão afamada pelos seus fundadores e construtores e guardiã das águas e dos velhos caminhos coloniais, se desfigurou perante uma cidade indefesa e indignada, que bradava nos jornais a sua repulsa, como o jornalista Xico Antunes (Diário da Tarde, 18 de fevereiro de 1974, p.4):

“Dias atrás, por acaso, olhei para a Serra do Curral, a serra da minha infância, que esteve sempre presente em minha vida e levei um susto. A serra não era a mesma, o seu rendilhado, a bela linha sinuosa e escarpada que marca o seu encontro com o azul do céu, nada mais era do que uma reta dura e insensível, insossa e sem alma. Era uma reta, uma reta terrível que, sem dúvida, poluía a beleza do horizonte, mostrando que, muito em breve, Belo Horizonte terá que mudar de nome, pois não terá mais belo horizonte. Eram as maquinas terríveis, imensas escavadeiras, transportadoras transistorizadas, caminhões e outros veículos menos votados liquidando com a paisagem da cidade, enchendo o ar da poeira fina e venenosa do minério, poluindo, poluindo, poluindo...”

Ao mesmo tempo em que Águas Claras promoveu o rápido rebaixamento da crista da serra, a Mina das Mangabeiras teve suas atividades encerradas no ano de 1979. Com o encerramento das atividades, a PBH e o Plambel deram início aos estudos e obras necessários para a instalação do Parque das Mangabeiras, criado por decreto no ano de 1966 e considerado não só um instrumento de proteção da porção do maciço correspondente à área destruída pela MBR, mas também um espaço que incrementaria o turismo em uma capital carente de atrativos turísticos.

A inauguração do Parque das Mangabeiras no ano de 1982 marcou o enrijecimento das políticas de proteção do patrimônio da capital, dilapidado em todos os sentidos. A exploração de Águas Claras continuava a todo vapor, mas a vedação às explorações futuras no maciço acabou por transferir o interesse mineral local para as porções mais a oeste no complexo, correspondentes aos municípios de Brumadinho, Igarapé, Itatiaiuçu e Matheus Leme, em locais que vinham sendo sistematicamente explorados desde a década de 1970, e guardiãs dos mananciais que abastecem a região metropolitana de Belo Horizonte.

Dentro dos ideais ambientalistas, que buscavam a blindagem de importantes áreas de notável diversidade, foi criado, no ano de 1988, o Parque Estadual da Baleia, visando à proteção das vertentes da serra do Curral, guardiãs das nascentes dos córregos do Navio e do Taquaril. No ano anterior, foi criado o movimento SOS Serra do Curral, que exigiu o tombamento do maciço em nível municipal, que mais uma vez se encontrava sob a ameaça da urbanização em suas áreas tombadas, a partir de um acordo celebrado entre a PBH e a Companhia de Desenvolvimento Urbano de Minas Gerais (CODEURB).

A Serra do Curral viria a ser tombada pelo município apenas no ano de 1990, a partir da Lei Orgânica de 21 de março, sendo delimitado no ano seguinte o perímetro de proteção junto ao alinhamento montanhoso. Nos anos seguintes, sofreu inúmeros acréscimos e alterações. É bom ressaltar que o trecho correspondente à região do Barreiro foi igualmente protegido não só pelo município, mas também pela criação do Parque Estadual da Serra do Rola Moça, berço das águas do ribeirão Arrudas e de alguns mananciais de abastecimento da RMBH.

O último grande impacto sofrido no alinhamento da serra foi à liberação da verticalização do bairro Belvedere, responsável pelo desaparecimento do perfil da serra no trecho correspondente a Lagoa Seca. Apesar das medidas protecionistas, a serra e o seu entorno se encontram em ininterrupta agressão, não só por parte de Belo Horizonte, mas também pelo município de Nova Lima que, seduzido pela grande arrecadação de impostos e favorecimentos mais, vem permitindo a construção de arranha céus ao longo da serra, inclusive em seu paredão. Inúmeras e infrutíferas foram às tentativas de se respeitar o perímetro de proteção e mesmo em amplia-lo, entretanto, a sede insaciável dos agentes fundiários prevaleceria frente aos interesses coletivos de uma cidade que possui uma relação de amor e de desprezo com os seus elementos naturais.

E no não tão distante ano de 2003, partia, para o além-mar, o último carregamento de minério de ferro da mina de Águas Claras desativada no final de 2002, deixando a herança em forma de buracos, rejeitos e iminentes desmoronamentos às futuras gerações que habitarão o sofrido torrão de terra curralense e que certamente lamentarão os resultados da ganância de uma geração que contribuiu apenas para alimentar o consumo exacerbado e a ignorância generalizada de um povo dominado pela ambição e pelo consumismo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Importante e imponente, a Serra do Curral e todo o seu complexo, guardiãs das riquezas minerais do Quadrilátero Ferrífero e das melhores reservas de ferro do planeta, repousou por milhões de anos livre da ação antropogênica, que em pouco tempo alterou parcialmente a sua insistente beleza. Danos que as intempéries do ambiente, dentro do processo natural de evolução geológica do planeta, levariam alguns milhares de anos para realizar de forma menos agressiva.

A sua beleza cênica e a importância ambiental e simbólica para a região e para o próprio arraial nascido, consolidado e arrasado aos seus pés, levou a Comissão Construtora a valorizar o maciço e os seus arredores, como um importante marco referencial da paisagem, figurando como o limite da cidade planejada e fornecendo rochas e minerais que embelezaram e construíram a nova capital de Minas Gerais.

O que a CCNC compreendeu e tratou de emoldurar o espaço urbano, acabou por se perder ao longo das décadas de acentuado crescimento urbano e das mudanças políticas e econômicas no cenário nacional e mesmo mundial. Os valiosíssimos depósitos de ferro do quadrilátero passaram a ser cobiçados pelas grandes potências mundiais, e da mesma forma que o ouro mineiro foi à base do capital necessário para a Revolução Industrial na imperial Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, o ferro alimentou a cobiça imperial armamentista do hemisfério norte na segunda metade do século XX com a exploração mineral no Quadrilátero que afetou diretamente o perfil do maciço curralense.

De fato, até o final da década de 1970, a grande maioria das administrações municipais e estaduais travou uma guerra aos elementos naturais: a natureza era vista como um meio que deveria fornecer recursos para o desenvolvimento das sociedades humanas, cedendo espaço para a materialização das grandiosidades da civilização. A promoção do afastamento do meio no qual a humanidade faz parte contribuiu para a visão deturpada que ainda existe nas sociedades atuais, onde a expansão horizontal e vertical dos centros urbanos, sendo Belo Horizonte um exemplo clássico, acabou por gerar lucros fabulosos para poucos e problemas decorrentes do mau planejamento para muitos. Nesse contexto, as pedreiras localizadas na Serra do Curral e dentro do perímetro delimitado para a nova capital, desativadas no decorrer do século XX (exceção feita à exploração do Acaba Mundo), desapareceram em meio ao tecido urbano, sendo quase impossível identificá-las na paisagem urbana sucessivamente modificada e adaptada pela cidade e pelas sociedades urbanas.

O reconhecimento da proteção federal pelo município, na década de 1970, e o posterior tombamento a nível municipal, nas décadas seguintes, a partir da mudança da consciência ambiental e patrimonial, asseguraram a preservação do perfil e das vertentes do maciço, responsáveis há mais de cem anos pelo abastecimento das cidades surgidas ao longo do complexo. No entanto, devido à fragilidade da área protegida, atingida pela especulação imobiliária, exploração mineral e degradação ambiental, a delimitação de um perímetro de entorno publicado pelo IPHAN, sob a Portaria 198, em maio de 2016, figura como uma resistência perante a expansão do tecido urbano dos municípios de Belo Horizonte e Nova Lima.

​Enfim, resistindo à degradação e às agressões diversas de uma cidade que, em meio à grandiosidade metropolitana, rompeu com os seus elementos naturais, a Serra do Curral del Rey, guardiã do belo horizonte, memória viva da existência e sentinela da vida agitada dos curralenses do século XXI, é a identidade viva de uma cidade em eterna construção.

-
Alessandro Borsagli é mestre em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG) e autor de diversos livros sobre a Geografia Histórica de Belo Horizonte.
REFERÊNCIAS

ARRUDA, Rogério Pereira de; WESTIN, Vera Lígia Costa. A serra e a cidade. Belo Horizonte: Secretaria Municipal de Cultura, 1998.
BARBOSA, Waldemar de almeida. Dicionário histórico-geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: SATERB, 1971.
BARRETO, Abílio. Belo Horizonte, memória histórica e descritiva; história média. v.2. Belo Horizonte: FJP/ Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1996.
BATISTA, Cláudia Paiva. Transformações e permanências na paisagem da Serra do Curral. Dissertação (mestrado). Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Geografia, Belo Horizonte, 2004.
BELO HORIZONTE. Coleção Relatórios dos Prefeitos 1899-2000. Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte.
BORSAGLI, Alessandro. Belo Horizonte em pedaços: fragmentos de uma cidade em eterna construção. Belo Horizonte: Clube de Autores, 2016.
______. Rios invisíveis da metrópole mineira. Belo Horizonte, Clube de Autores, 2016.
______. Sob a sombra do Curral del Rey: contribuições para a história de Belo Horizonte. Belo Horizonte, Clube de Autores, 2017.
BRASIL. IPHAN. Livro do Tombo v. 28, 1960.
BURTON, Richard. Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1976.
FERRAZ, S. C. “Triste Horizonte”: Movimentos em defesa da Serra do Curral – Belo Horizonte, década de 1970. Monografia (Graduação em História) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Belo Horizonte, 2008.
FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO/Centro de Estudos Históricos e Culturais. Panorama de Belo Horizonte; Atlas Histórico, Belo Horizonte, 1997.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. 39ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.
MATA MACHADO, Bernardo Novais. O caso Hanna/MBR: cronologia de uma investigação. Disponibilizado pelo próprio Autor, 2003.
MINAS GERAES. Commissão d’Estudo das Localidades Indicadas para a nova Capital. Relatorio apresentado a S. Ex. Sr. Dr. Affonso Penna, Presidente do Estado, pelo engenheiro civil Aarão Reis. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1893b.
PENNA, Octávio. Notas Cronológicas de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1997.
PEREIRA, Osny. Duarte. Ferro e Independência. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1967.
PLAMBEL. Programa metropolitano de parques urbanos: parque das Mangabeiras, relatório preliminar. Belo Horizonte: Plambel, 1979.


Ainda que dura_ Vistas
Ainda que dura_ Marcos topográficos
Ainda que dura_ Monotipias